sexta-feira, 28 de julho de 2017

- A história da Professora AFONSINA XI


Ponte semelhante à descrita no artigo, construída por mim às margens da lagoa, em Guarajuba - Ba.

E a vida seguia normalmente, quando, no final do ano de 1941, veio a transferência do Dr. Bruzza para outra cidade, desta vez, Catanduva, no interior de São Paulo.
 Logo que chegou à cidade, o Dr. Bruzza, entendendo que sua mulher,  vinda da Capital, precisaria de alguma atividade para quebrar a monotonia própria da vida em uma cidade do interior da Amazônia, tratou de abrir, em seu nome, uma farmácia, não apenas útil para sua mulher mas, principalmente, para a população local, carente de recursos terapêuticos.
E, antes de viajar para o novo destino, acertou a venda do estabelecimento para o amigo - e agora cunhado - FRANCISCO, chamado por todos de CHICO MARTINS. Mais uma atividade exigindo a presença do já sobrecarregado FRANCISCO. AFONSINA, então, passou a dividir os afazeres domésticos com o atendimento na farmácia, uma vez que o casal resolvera deixar provisoriamente, a casa da praça da Matriz, para morar nas dependências amplas do prédio onde funcionava a farmácia recém adquirida.
Logo no início do ano de 1942, a morte levara seu amigo, protetor e patrão, JOSÉ FIGUEIREDO. Como seu antigo sogro havia comprado a pequena fazenda do Cachoeiri em nome de sua filha caçula, LAURINDA, quando ela morreu a propriedade passou a pertencer aos meeiros, seu filho JOSÉ e seu esposo FRANCISCO.
Pretendendo ampliar os negócios da fazenda, FRANCISCO adquiriu algumas cabeças de gado, ampliando o plantel já existente, além de dois cavalos que o vaqueiro, seu Alfredo, que já trabalhava na fazenda, usaria para a labuta com o gado.
O casal, FRANCISCO e AFONSINA, passou a frequentar com mais assiduidade a propriedade, embora as viagens de canoa a remo, demandassem grande esfôrço do Alfredo que vinha do Cachoeiri até a cidade buscar o casal com seu filhinho, além de víveres e insumos. Já grávida pela segunda vez, numa dessas estadas lá na fazenda, aconteceu uma quase tragédia envolvendo o menino, ou seja, EU: É preciso esclarecer que, naquele tempo, nem na cidade havia água encanada, muito menos nas sedes das fazendas ou nas casas dos ribeirinhos. As atividades relacionadas com água, eram desenvolvidas nas margens dos rios. Para tal mister, construíam-se pequenas pontes de madeira projetadas sobre o rio, geralmente na frente das casas ou sede das fazendas. Ali, tomava-se banho de cuia e lavavam-se roupas, louças, panelas e outros utensílios. Em determinada tarde de temperatura elevada, o casal desceu para o banho levando o menino, isto é, - EU - que, a esta altura, deveria ter uns oito/nove meses de idade. Por infeliz coincidência, o casal formado pelo vaqueiro Alfredo e D. Dira, sua mulher - agora transformada em minha babá - tivera a necessidade de visitar um parente, chamado Manoel Gualberto que estava doente e morava rio acima. Os   dois entraram na " montaria " * e lá se foram para o compromisso.
 Ao chegarem à beira do rio, o casal colocou a criança sobre a ponte  e entrou na água para tomar banho. Devem ter se distraído por um momento e, quando AFONSINA olhou para onde haviam deixado o menino, ele já não mais lá se encontrava!...


* montaria - designação genérica de pequenas canoas movidas a remo que os habitantes do Baixo Amazonas usavam nos seus breves deslocamentos, talvez por comparar a pequena embarcação,com os animais de monta, também usados em pequenos deslocamentos, só que em terra.


Continua na próxima sexta-feira...
Bom fim de semana a todos.
       
                                                             

sexta-feira, 21 de julho de 2017

A história da professora AFONSINA - X -






                                                                 - Imagem Internet -


                                                                      - Imagem Internet -


Bem diferente do casamento de LAURINDA e FRANCISCO, a cerimônia do enlace de  AFONSINA e FRANCISCO transcorreu sem muita pompa, não somente pelo fato de a maior parte da família da noiva ser originária da capital, Belém e não se encontrar na cidade, como pela razão totalmente compreensível, evidenciada pelo pouco - para a época - tempo decorrido desde a morte  da
 D. LAURINDA.
 Vale a explicação que, naquele tempo, o luto era demonstrado acintosa e pesarosamente, com o uso de roupas pretas durante os primeiros 6 meses após a morte do cônjuge ou parente mais próximo, pelos homens e durante um ano pelas mulheres. Aos homens, a partir do sexto mês , era " permitido " o uso de uma tarja confeccionada com tecido preto, chamado popularmente de " fumo ", ostentada geralmente no bolso da camisa, à altura do peito esquerdo.
Ainda assim, foi uma festa bonita para os padrões da época.
E logo veio a primeira gravidez! Menina embora, AFONSINA não demonstrou sentir nenhuma anormalidade das que costumam acometer às grávidas, principalmente no início do processo. Enquanto a gravidez transcorria dentro dos padrões, a jovem - agora, repentinamente, transformada em " dona de casa " - passou a dedicar-se totalmente aos encargos inerentes à nova realidade. Mas ela não se limitou a cumprir suas tarefas caseiras, no início de maneira mais ou menos eficiente devido à pouca idade. Como tinha um talento inato para a pintura e muita perícia em trabalhos manuais, aproximou-se, naturalmente, das pessoas da comunidade que tinham dons afins. Assim é que se tornou amiga e aluna de D. Dalila, doceira de " mão cheia " que, além de vizinha, era a irmã mais velha da falecida LAURINDA, primeira mulher de FRANCISCO, agora seu esposo. D DALILA era tão boa na arte de fazer e decorar doces e, principalmente, bolos confeitados, que alguém criou, baseado numa marchinha de carnaval de sucesso na época, que dizia:
 "Ah! quem me dera Dalila, Dalila que eu fosse o Sansão! os teus encantos Dalila, de Sansão a sua perdição...".
 e a paródia criada ficou assim:
 " Ah! quem me dera DALILA, se eu fosse o MARCOS TEIXEIRA, eu te pegava DALILA e te mandava pra " Palmeira..." .
  MARCOS TEIXEIRA - Juiz de Paz da cidade - era esposo da D. DALILA  e " Palmeira "  era uma famosa e prestigiada fábrica de doces e biscoitos localizada em Belém.
 Esta aproximação se deu, também, com D.LAURA DINIZ - chamada carinhosamente de D. LAURINHA - que promovia principalmente espetáculos teatrais, produzindo e encenando, como diretora, peças infantis tais como Branca de Neve e os Sete Anões e outras.
E a gravidez, sem nenhuma intercorrência, chegou ao seu clímax às 6 h da manhã do dia 18 de outubro do ano de 1941. Nascia, neste dia, o primogênito, pelas mãos experientes e competentes de D Lucila, desta vez sob a supervisão profissional do cunhado da parturiente, Dr. BRUZZA. E o recém- nascido, menino saudável e robusto, inundou de alegria aquele lar improvável devido à brutal diferença de idade entre o casal. Nome escolhido, logo se providenciou o batismo do bebê. Chamar-se-ia CLÓVIS e teve como padrinhos o casal JOSÉ DINIZ e sua esposa, D. LAURINHA DINIZ.
 O sacramento foi ministrado pelo Frei PROTÁSIO, pároco local, em frente ao altar mor da igreja de Santo Antonio, uma joia em madeira de lei, arte inigualável, hoje inexistente, vítima da sanha destruidora e ignorante de um padre alemão, chamado  Fortunato Lamprecht, de triste memória.
 Até hoje não entendo porque a comunidade oriximinaense permitiu que um energúmeno,
 ( interpretando de maneira errônea a Encíclica Papal ) saído não sei de que buraco, transformasse a madeira do altar sagrado,  até em lenha para fogueira!...

                                                         
Continua na próxima sexta-feira...
Bom fim de semana a todos.

sexta-feira, 14 de julho de 2017

A história da professora AFONSINA - IX -


                                                        -  Imagem Internet



A família de D. CARMEM era composta por ela - viúva de LEONEL XIMENES DE ARAGÃO - e sete filhos cujos nomes, cronologicamente, passo a declinar: MARIA RITA, TITO LEONEL, ODALÉA CARMEM, JOÃO GUALBERTO, RAIMUNDO VITORIANO, AFONSINA ELINDA e PAULO DE TARSO, todos nascidos em Belém e alguns já casados. A família morava na casa da rua Boaventura da Silva, entre as travessa Nove de Janeiro e Vinte e Dois de Junho ( atual Alcindo Cacela ).
 Ao chegar de volta à Belém de sua viagem à Oriximiná, D. Carmem, sem perda de tempo e por recomendação expressa da MARIA RITA, tratou de comunicar à sua única filha ainda solteira, AFONSINA, de apenas 16 anos, que deveria preparar-se porque iria se casar com um senhor viúvo, cujo nome era FRANCISCO, lá na cidade onde morava sua irmã mais velha!...
Cabe explicar, a esta altura, que as mulheres de então não tinham liberdade para escolher a quem desposar. A maioria das vezes eram os pais que determinavam quando e com quem se casariam. É inimaginável tal procedimento nos dias de hoje, daí a explicação.
Embora ainda por concluir o curso na Escola Normal do Estado do Pará, AFONSINA, obediente como as jovens o eram naquele tempo, sob a orientação da mãe, tomou todas as providências necessárias ao seu deslocamento para o destino que lhe fora comunicado há pouco, para ela totalmente desconhecido. O enxoval, incluindo o vestido de noiva, foi providenciado em Belém onde havia maior facilidade de ser confeccionado. Um ano se passara desde que a primeira esposa de FRANCISCO, D. LAURINDA, havia falecido, quando, lá pela segunda quinzena do mês de novembro de 1940, chegaram, pelo mesmo navio, o " Barão de Cametá ", D. Carmem e sua filha AFONSINA.
 A esta altura, a cidade toda já tomara conhecimento de que aquela moça seria oficialmente declarada noiva do Sr. FRANCISCO, assim que ele cumprisse as formalidades, pedindo sua mão em casamento perante a mãe da jovem e sua irmã mais velha. A notícia da próxima chegada da moça à cidade e da finalidade a que se destinava, fora metodicamente comunicada à sociedade local pela diligente e firme iniciativa da MARIA RITA. E o FRANCISCO, demonstrando irresistível atração pela recém chegada, não tardou a cumprir o ritual do pedido de casamento perante a parte da família da jovem presente na cidade. Desta vez, porém, na mesma ocasião da  cerimônia do pedido de casamento, foi anunciado pelo noivo que o enlace se daria logo no mês de fevereiro do ano seguinte, isto é, 1941. Faltava apenas determinar o dia, que dependeria, naturalmente, do cumprimento dos trâmites legais e da agenda do pároco. Finalmente, passadas as festas de fim de ano, ficou  decidido que a cerimônia nupcial seria realizada no dia 13 de fevereiro. Aliás, o dia 13 começava a marcar  algumas datas importantes da vida da noiva: ela nasceu no dia 13 de janeiro de 1924 e agora casaria no dia 13 de fevereiro de 1941...

                                                                       
Continua na próxima sexta-feira...
Bom fim de semana a todos.
  

sexta-feira, 7 de julho de 2017

A história da professora AFONSINA - VIII -




                                         Praias do rio Trombetas - imagem da Internet -



                                FRANCISCO, ao se casar com a filha de uma das figuras preeminentes da cidade, naturalmente ascendeu a um patamar superior na sociedade local; com isto, suas amizades mais próximas eram, como é natural, com as personalidades mais expressivas da pequena cidade e, entre estas personalidades, figurava uma de quem se tornou bem mais próximo: justamente o médico recém chegado.
 A amizade se solidificava mais e mais, a ponto de o amigo FRANCISCO passar a frequentar, com assiduidade, a casa do médico. Enquanto isto ocorria, lá em Belém, a Sra. CARMEM RODRIGUES DE ARAGÃO, viúva de LEONEL XIMENES DE ARAGÃO, morto com apenas 42 anos de idade e mãe da esposa do Dr. BRUZZA, de nome MARIA RITA ( chamada familiarmente de MANA ou MEIRY, como já referido anteriormente, mulher decidida e com uma  personalidade forte ), sentindo - como é natural - saudade da filha mais velha, resolveu que iria visitá-la, tão logo aparecesse uma oportunidade. Decisão tomada, lá se foi a D. CARMEM em viagem a bordo do " vapor " chamado
" Barão de Cametá ", com destino à terra onde morava sua filha . Quando o mês de agosto de 1940 chegava à sua metade, eis que, sem nenhum aviso ( naquele tempo as comunicações eram terrivelmente difíceis até entre as capitais!!! ), chega à pequena cidade a mamãe saudosa, com a intenção de voltar à Belém pelo mesmo navio, o que demoraria cerca de doze dias, entre sua chegada à Manaus e seu regresso até Oriximiná. Tratou então de aproveitar a companhia da filha e do genro, o máximo de tempo possível.
É necessário, a esta altura da narrativa, passar para os leitores mais jovens, os preceitos e normas, inimagináveis para os dias de hoje, que vigoravam naquela época. Um preceito que tinha a concordância tácita de toda a sociedade, era que, quando dois ou mais homens estivessem conversando, nenhuma mulher ou criança e muito menos serviçal, poderia se aproximar, salvo se fosse expressamente chamado ou chamada. Deveriam passar ao largo!
 Um belo dia, porém, MARIA RITA casualmente ouviu, ao passar pela porta da sala, o FRANCISCO fazendo um comentário em sua conversa com o dr. BRUZZA, no qual se queixava de ter ficado viúvo, com um filho de apenas 5 anos de idade e precisava voltar a se casar. Na cidade porém, todas as moças em idade de casar e que lhe despertavam algum interesse, já eram casadas ou estavam comprometidas. MARIA RITA, atrevida, irrompeu na sala, aproximou-se dos dois e, de maneira inesperada, disse: " Seu CHICO, mamãe voltará  à Belém e vai trazer minha irmã mais nova pra casar com o senhor! ". Estáticos, não só pelo inusitado da declaração mas principalmente pela
 " intromissão absurda " de uma mulher na conversa de dois homens, nada foi dito de pronto por nenhum deles. Apenas fizeram um muxoxo que acabou sendo interpretado por ela como aquiescência. Alguns dias se passaram até que o " Barão de Cametá ", voltando de Manaus, aportou no " trapiche "*, desembarcando viajantes e mercadorias e embarcando passageiros e cargas - principalmente castanha do Pará e juta - e, entre os passageiros, lá se foi D. Carmem de volta à capital paraense cumprir as " determinações " da sua enérgica e resoluta filha...


* Ponte ( no caso, de madeira ) localizada à margem do rio, em frente à cidade, construída na parte mais profunda, que serve para a atracação de navios e outros barcos, à exceção de transatlânticos que carecem de maior calado. Estes, fundeavam no canal existente no meio do rio, lançando suas enormes âncoras, presas a correntes de diâmetro impressionante, para nós, meninos de imaginação fértil, " da grossura da nossa coxa "...
                                                               
Continua na próxima sexta-feira...
Bom fim de semana a todos.