sexta-feira, 29 de dezembro de 2017

- INDÍCIOS DE INCAS NA AMAZÔNIA PARAENSE - final -






Além das peças retratadas nos dois artigos anteriores, havia objetos e utensílios 
da época pré-histórica, mais precisamente do período Neolítico ou da pedra polida, 
ocorrido entre os anos de 12000 a.C. até 4000 a.C. São evidências de tal afirmativa 
as fotos que ilustram o presente artigo, representando, por sua aparência, uma 
espécie de tacape e um instrumento cortante parecido com um machado de 
tamanho reduzido, ambos elaborados em pedra polida. Levando em consideração 
as informações, sem muita precisão, reveladas ao meu companheiro de viagem pelo 
caboclo de quem ele adquiriu as peças, que davam conta das profundidades em que 
os objetos foram coletados, isto é, entre mais ou menos 80 cm e 8 m, podemos 
chegar a conclusão que:
a - As peças representativas de artesanato Inca, encontradas entre 80 cm e 1 m, 
devem ter por volta de 400 anos;
b - Os objetos da era da pedra polida, encontradas a mais ou menos 8 m de 
profundidade, seguindo o mesmo raciocínio, as colocaria em cerca de 6100 anos 
atrás, coincidindo com o fim do período Neolítico, demarcado pelo invento da 
escrita no ano 4000 a.C..
Ora, se tais parâmetros de tempo estiverem mais ou menos corretos, chegaríamos, 
no que diz respeito aos Incas, justamente ao período em que os espanhóis - 
Francisco Pizarro e seus comandados - chegaram à região por eles habitada, isto 
é, o ano de 1531. Como não tenho condições de proceder à datação com carbono 
14 das peças, uma vez que não as possuo,  só me restaria proceder ao estudo da 
quantidade de material em suspensão existente nas águas do Amazonas
anualmente depositado em suas margens por ocasião das enchentes. Claro que 
tal estudo demandaria tempo e apuro técnico, além de grana, para que seus 
resultados tivessem condições absolutas de credibilidade científica. Na falta 
desses elementos, reservei-me o direito de atribuir um depósito de mais ou menos 
20 cm de material, carreado pelas águas do Amazonas, a cada século. Não 
acredito que tal medida esteja totalmente fora da realidade se levarmos em conta 
a enorme quantidade de sedimentos em suspensão deslocada pelo grande rio.
Duas grandes conclusões poderão ser tiradas de tudo aqui revelado sob o aspecto 
histórico:
1 - O povo Inca se fixou por algum tempo na região compreendida entre a divisa 
dos estados Pará/Amazonas e a cidade de Óbidos, no Pará;
2 - Desde a pré-história - período Neolítico ou da pedra polida - o homo-sapiens 
habitava a região da Amazônia Paraense.




Um ótimo final de semana aos meus amigos e visitantes. Voltem sempre e deixem
seus comentários.

Abraço,

Clóvis de Guarajuba
ONG Ande & Limpe

sexta-feira, 22 de dezembro de 2017

- INDÍCIOS DE INCAS NA AMAZÔNIA PARAENSE - I -






Antes de apresentar minha tese que explicaria a presença de membros do império 
Inca  nas terras localizadas entre a divisa dos estados Pará/Amazonas e a cidade 
de Óbidos no Baixo Amazonas paraense, é necessário fazer uma viagem ao 
passado. Começaria por uma rápida visita à história dos Astecas ao tempo da 
chegada dos europeus ao Novo Mundo. Fernando Cortez chegou por volta dos 
anos de 1517 ou 1518, encontrando o império Azteca em pleno florescimento, sob 
o comando de Montezuma II e, depois de  conquistar a confiança do ingênuo gentil, 
acabou por assassiná-lo, assim como à maioria de seu povo, no ano de 1520
Logo assumiu seu lugar aquele que seria o último imperador dos Aztecas 
chamado Cuauhtémoc. Cortez impôs um novo morticínio, desta vez liquidando 
com os Aztecas. Claro que alguns remanescentes, vendo as atrocidades perpetradas 
pelo espanhol e tendo consciência que nada poderia ser feito para neutralizar as armas 
por ele usadas, devem ter fugido, uma parte rumo ao sul, onde a partir da parte 
meridional da Colômbia, acabaram por contactar os Incas para os quais narraram 
as terríveis consequências advindas com a presença dos europeus. Penso que 
esta fuga deve ter durado uns cinco anos, tempo suficiente para alguns 
remanescentes chegarem até o limite norte do império Inca. A brutal descrição 
dos episódios, feita pelos recém-chegados, deve ter alarmado o povo Inca que 
passou a temer a chegada de tais assassinos aos limites do seu império. Foi 
sob o impacto dos acontecimentos lá no império Azteca, que os Incas viram 
chegar aos seus domínios, no ano de 1531, um outro espanhol, Francisco Pizarro
Tal qual seu conterrâneo Cortez houvera feito com os Aztecas, também começou 
por angariar a simpatia dos nativos, com o único objetivo de descobrir, sem
necessidade de conflito, os tesouros que imaginava escondidos pelos Incas.



A simples chegada de 
homens barbudos, 
portando armas 
desconhecidas, mas 
já descritas pelos 
Aztecasinclusive 
quanto a sua letalidade, 
deve ter feito alguns 
componentes do império 
Inca fugir, temerosos 
das consequências 
sinistras que adviriam, 
se permanecessem 
convivendo com os invasores. 
Assim, resolveram fugir 
imediatamente, aproveitando 
para isto o fácil roteiro de 
fuga oferecido pela 
correnteza das águas 
dos rios da região. Vale 
lembrar que o rio Amazonas 
é navegável, inclusive por 
navios de grande porte, até a cidade 
de Iquitos, no Peru

A maioria das famílias fugidas deve ter levado consigo artefatos, objetos 
domésticos, símbolos religiosos e até ídolos, retratados em peças de cerâmica, 
madeira ou até em ouro. As ilustrações que apresento neste artigo e no artigo da 
semana passada, nos dão conta de imagens antropomorfas e de animais 
estilizados, principalmente condores, pássaro só encontrado nos Andes. Longe 
de pretender ser o dono da verdade, submeto estas minhas anotações e ideias 
aos doutos no assunto, apenas esperando ter colaborado para a explicação da 
presença dos Incas na Amazônia Paraense.



Continua na próxima postagem...

Um excelente final de semana a todos, obrigado pelas visitas.
Abraço,

Clóvis de Guarajuba
ONG Ande & Limpe



sexta-feira, 15 de dezembro de 2017

- INDÍCIOS DE INCAS NA AMAZÔNIA PARAENSE - introdução -



Na última viagem que fiz à Amazônia, no mês de março passado, conheci 
um companheiro de viagem a bordo do navio que me levou de volta à Belém, 
procedente de Oriximiná, onde fui visitar alguns amigos. Ao final do primeiro 
dia já havia uma certa empatia no nosso relacionamento fruto das longas 
conversas sobre assuntos diversos, por nós mantidas durante a viagem, até então. 
Possuidor de razoável conhecimento geral, tinha uma fácil conversa sobre os mais 
variados assuntos, até que, em determinado momento, revelou-me que comprara 
de um certo caboclo da região, algumas "caretas de índio", termo usado pelos 
ribeirinhos para designar fragmentos de artesanato, principalmente cerâmicos, 
muito comuns na região, elaborado por silvícolas outrora  radicados no denominado
Baixo Amazonas ". Claro que mostrei-me vivamente interessado. Em resposta à 
pergunta que lhe fiz - se poderia ver tais fragmentos - ele prontamente buscou em 
uma sacola que se encontrava debaixo da rede onde dormia, um pacote 
cuidadosamente protegido por pedaços de isopor. Fiquei realmente deslumbrado 
ao ver tais objetos. Tratava-se de partes de vasos e outros objetos artesanais que 
me trouxeram ao pensamento, instantaneamente, a arte INCA há muito vista e 
estudada nos livros de história. Mas ,como seria possível?! Os INCAS estavam 
radicados lá na Cordilheira dos Andes, a cerca de 3000 km do local onde o meu 
amigo comprara as peças. Seu vasto império se espalhava desde o sul da 
Colômbia até  a parte central do Chile, porém, sempre às proximidades da 
cordilheira. Para não despertar a curiosidade do companheiro de viagem, detentor 
das relíquias, mantive-me mais ou menos calmo, sem demonstrar nenhuma 
ansiedade, até que consegui a permissão para fotografar algumas daquelas 
peças... No dia seguinte, logo após o café da manhã, procurei novamente me 
aproximar do dono das peças. Meu objetivo era saber a exata localização do 
sítio arqueológico. Nada consegui, pois me foi dada a explicação que tudo aquilo 
era sigiloso e o tal caboclo que vendera o achado, se negara terminantemente a 
revelar o lugar de origem: alguém o havia advertido que, se uma entidade ligada 
ao assunto - tipo o Museu Emílio Goeldi, de Belém - soubesse da exata localização 
do sítio e esse lugar fosse próximo a sua casa, ele seria deslocado imediatamente 
para outro local. Disse apenas que não foi preciso nenhuma escavação porque 
o rio, ao provocar o fenômeno denominado de " terras caídas ", acabara por 
revelar aquelas peças e ele só teve o trabalho de coletá-las. É possível que o rio 
já tivesse levado boa parte dos objetos pois ele, apenas por acaso, passara de 
canoa pelo local e vira alguns objetos na margem, a uma profundidade que variava 
de cerca de 80 cm a 8 m. abaixo da superfície do solo. Durante o resto da viagem, 
comecei a elaborar mentalmente uma teoria que poderia explicar a possível presença 
de membros do Império Inca em local tão distante dos Andes. Tal teoria será assunto
 para a próxima postagem.

Continua na próxima sexta-feira....

Bom final de semana a todos os amigos e visitantes.
Abraço,

Clóvis de Guarajuba
ONG Ande & Limpe

sexta-feira, 8 de dezembro de 2017

- MIOLO DE PÃO - final -





" Depois de navegar quanto bem quis, tendo os pés como *palhetas, Miolo de Pão procurou
o barraco do bêbado, mas não o localizou entre tantos barracos da invasão do Riacho Doce.
Miolo de Pão se acordou de madrugadinha pelo barulho que sacudia a cidade. Era como se
a cidade toda estivesse caminhando de pés descalços. Vozes se multiplicavam a todo instante.
Brinquedos de miriti passavam suspensos em enormes cruzetas. Pessoas vestidas de camisolões
brancos passavam apressadas para o centro urbano. O que estava acontecendo?
O pato procurou explicações nas águas do Tucunduba. Quando lá chegou, já estavam cheias
de pessoas, umas tomando banho com baldes, outras nadando no meio das águas.
Miolo de Pão compreendeu que já estava bastante atrasado em sua programação.
Antes tentou entrar no primeiro barraco que encontrou. Colocou o bico dentro da casa
procurando sentir os cheiros que vinham da cozinha. Como os moradores eram tão pobres que
não tinham dinheiro para comprar pão, de lá não chegava nenhum cheiro de miolo.
E o pato foi gingando à procura de outras portas.
Na terceira, de lá pra cá, de cuja cozinha não vinha cheiro de nenhuma espécie, alguém
chamou o animal, carinhosamente, talvez pensando no almoço do dia. Miolo de Pão tratou de
andar ligeiro e levantou voo à procura das águas do Tucunduva.
Enquanto se ouvia, ao longe, o espocar dos fogos de artifício, saiu um pequeno batalhão de
menores, dos duzentos mil que habitam Belém em absoluta miséria, à procura de completar
a "meia comida e meia escola".
Rita avistou da porta da sua casa o João Felício, que ia passando de pés descalços para
acompanhar o Círio.
- Bom dia, seu João!
- Bom dia, Dona Rita.
- Não vai acompanhar o Círio? - João quis saber.
- Vou. Vamos eu e o Dagoberto.
- O senhor ainda trabalha no barco "Rodrigues Alves"? - perguntou Rita.
- Ainda, dona Rita.
- Ele continua fazendo viagem pra Cametá?
- Continua.
- Aconteceu alguma coisa? - perguntou João Felício.
- O Dagoberto, ontem à noite, trouxe um pato grande...mas eu já tinha comprado um para
o Círio. Vai acabar se perdendo no Tucunduba. Fiquei pensando: será que o senhor não
levava pra vender no barco?
- Levo, sim. Em Cametá, tem um bom criador de patos, talvez ele compre pra revender.
Pergunta Rita:
- Como é o nome dele?
- Edgar. Vou vender pra ele.
- Eu lhe dou uma comissãozinha. E se virando para dentro de casa:
- Vai pegar o animal, Dagoberto!
Dagoberto desceu da casa, com as mãos cheias de miolo de pão, para atrair o pato ".


palhetas - tem o significado de " hélices ", sentido muito comum no linguajar da região.

Um ótimo final de semana a todos. Obrigado pelas visita.
Abraço,

Clóvis de Guarajuba
ONG Ande & Limpe

sexta-feira, 1 de dezembro de 2017

- MIOLO DE PÃO - IX -



Dagoberto tem dúvidas: não 
sabe se acompanha a Transladação 
ou se vai para o Riacho Doce.
Chama a atendente.
Um homem passa, carregado de 
bolas gigantescas. Um menino puxa 
o pai pela mão, para comprar a bola 
de tantas cores. Os brinquedos 
estão espalhados pelo chão, 
protegidos por jornais velhos. 
Uma menina  caminha em sentido 
contrário, brincando com um 
reco-reco. O barulho desperta o 
pato. O homem levanta-se.. Olha 
para o pato dentro do paneiro.. 
Fala alto:
 -Véspera do Círio. Que 
Nossa Senhora de Nazaré nos 
proteja! E, curvando-se para pegar 
paneiro: 
-Vamos embora, imbecil!



Depois que Dagoberto deu algumas marretadas na porta, Rita foi atender:
- Só agora? - perguntou.
E Dagoberto:
- Fui atrás de pato!
E tratou de abrir a boca do paneiro. Ficou surpreso porque a boca já estava 
praticamente aberta.
- Olha que beleza! - exclamou.
Rita não concordou muito:
- Pra quê?
- Pro Círio.
- Já comprei o pato pro Círio. Você acha que eu ia esperar até agora?
Dagoberto sentiu cheiro de maniçoba.
- Então vamos comer na próxima semana - sugeriu.
- Pato só é bom no dia do Círio - disse Rita.
- Então coloca no terreiro!
- Que terreiro, homem? Só se for no igarapé do Tucunduba!
O homem caiu em sí e olhou o universitário igarapé. Sem nada dizer, 
concordou com a mulher.
- É um pato grande e bonito!
Lembrou a pessimista:
- Vai quebrar toda a louça se ficar em casa...
Farto de tanto recolhimento, o patarrão deu duas descarregadas no chão 
da casa de Rita, e se dirigiu para o tanque que estava cheio de água.
- Não é o que digo?
Dagoberto coçou a cabeça








Rita se aproximou, pegou 
o pato pelas asas e o sacudiu 
no Tucunduba. O voo curto 
da ave terminou nas águas que 
banham cinco bairros, que 
estavam mansas e apaziguadas 
pelas horas que eram.
- Só resta dormir! - falou 
Dagoberto ao armar a rede ".








Continua na próxima postagem...

Bom final de semana a todos.
Abraço,

Clóvis de Guarajuba
ONG Ande & Limpe

sexta-feira, 24 de novembro de 2017

- MIOLO DE PÃO - VIII -


Rio Tucunduba - Belém

" Indiferente, inchado de tanta poluição, o Tucunduba nada respondia, no seu 
longo deslizar pelos cinco bairros da cidade de Belém, desde Jabatiteua, Marco
Canudos, Terra Firme e Guamá. Apesar de sua doença poder ser identificada 
pelo material que é despejado pelas indústrias situadas às margens, alem do lixo 
doméstico e fezes humanas, o Tucunduba é um pequeno igarapé bonito.
Na travessia que faz pelos bairros pobres de Belém, carrega consigo questões 
de toda sorte, para treze-las finalmente ao campus universitário.
Quanto mais fechada ficava a cara da Rita, a mulher do bêbado, falando contra
o Tucunduba, Dagoberto dizia a brincar:
- Não existe lugar melhor, mulher! Não existe igarapé mais sábio no mundo. Ele 
atravessa o campus da universidade e, se um dia ele transbordar, leva o Riacho 
Doce e tudo o mais!
- A professora Vera disse que vai transbordar, Dagoberto. Só uma dragagem 
salva o igarapé. Quem vai se preocupar com seus moradores?
Sem se incomodar com as brigas e com o lazer das crianças pobres, o Tucunduba 
vai rolando ao longo de sua extensão e de uma população de mais de duzentas 
mil pessoas.




Alegre ficava pelo fluxo de água 
trazido pelo rio Guamá e alguma 
vegetação mais resistente. Dádiva 
dos deuses a sustentar o resto de 
oxigênio que ainda existe.
Por isso é que o Tucunduba
ansiosamente, como que abre sua 
boca pra receber o que o rio Guamá 
manda em solidariedade. Infeliz 
do peixe menor que, ao fugir do 
maior, entra através do Guamá
Não resiste. Foi assim que 
aconteceu com aquele imenso peixe 
de pele lisa que entrou no 
Tucunduba, em dia de maré alta. 
A principio assombrou os meninos 
com seus mergulhos e artimanhas. 
Os que tomavam banho no igarapé 
ficaram apreensivos. 





Pensavam que era um monstro que estava aparecendo no Tucunduba
nas noites de lua cheia. Porque era nas noites de lua cheia que o luar tirava 
reflexos de sua barriga branca. Não foi longe o peixe. Morreu no campus 
universitário, à míngua  de tratamento".

Obs: O peixe referido no texto seria um "Filhote", abundante nos rios da 
Amazôniaque tem a pele lisa, a barriga branca e pode pesar até 200 kg.

Continua na próxima postagem...

Bom final de semana a todos.
Abraço,

Clóvis de Guarajuba
ONG Ande & Limpe

sexta-feira, 17 de novembro de 2017

- MIOLO DE PÃO - VII -





" Como a massa às vezes ficava redonda como uma bola, o pato nunca tinha visto
um miolo de pão tão grande, por isso saiu andando às pressas, um passo lá e outro
cá, e voou em cima da massa de pasteis às bicadas. A vendedora quase desmaiou
com a inesperada e violenta agressão,enquanto o pato saboreava o que podia, ao
mesmo tempo que aproveitou para uma descarregada pelo traseiro..
Enquanto o barraqueiro vizinho tentava ajudar a vendedora, o pato, saciada a
fome, desceu e voltou para o seu lugar primitivo. O bêbado nada percebeu e, pelo
excesso de cerveja, dava cabeçadas no vazio o sono chegando aos poucos.
Embora entre uma cabeçada e outra no vazio a Transladação tenha passado, o
homem ainda via os repetidos fogos de artifício, e ouvia, compassado e agradável,
o badalar dos sinos da Basílica de Nossa Senhora de Nazaré.
Quis chamar a garçonete, mas seu gesto se perdeu naquele aglomerado de
pessoas..  "Pagar a conta e ir pra casa", pensou. Olhou para o pato que já estava
quieto dentro do paneiro. Pensou mais ainda. Não tinha coragem de enfrentar sua
mulher, em casa. Desde setembro de mil novecentos e noventa, com as primeiras
levas dos dez mil invasores, chegara às margens do igarapé do Tucunduba.
Participara da invasão Riacho Doce. Todos diziam que era doce o Tucunduba,
que hoje  é uma sujeira de meter medo.

A mulher era por demais rabugenta, burra e pessimista. Vivia a falar contra o
Tucunduba.- Ele vai transbordar! Quem falou foi a doutora Vera, E, quando
transbordar, vai levar todas as nossas casas...
Ao lado do sanitário ficava a cozinha, e a mulher jogava uma lata amarrada por
uma corda para puxar água. Quando estava para discutir, o bêbado dizia:
- Poluído nada! As crianças andam de canoa e tomam banho.
Dagoberto era o bêbado. Esperava todas as tardes que, pelo menos uma vez
só, a mulher chamasse carinhosamente pelas duas primeiras sílabas do seu
nome, acrescentando um assento agudo ou circunflexo, para ele melhor olhar a
vida.Quando amanhecia e via a mulher olhando o igarapé passar, segurando o
balde para puxar água, costumava  brincar alegremente. Olhava o igarapé e dizia:
- Bom dia, Flor do dia! "

Continua na próxima postagem...

Desejo a todos os meus amigos uma excelente Páscoa.
Abraço,

Clóvis de Guarajuba
ONG Ande & Limpe

sexta-feira, 10 de novembro de 2017

- MIOLO DE PÃO - VI -





" O homem falava consigo mesmo:
- Boca seca. Faz tempo que não bebo!
A brisa vespertina da baía de Guajará já tinha invadido a cidade e o clima estava
ameno, por isso o homem foi caminhando. Ao aproximar-se da união da Braz de
Aguiar com a Generalíssimo, viu as luzes do Largo de Nazaré, porque a noite
tinha chegado e a resistência da tarde era tênue por dois ou três borrões de
vermelho no horizonte.
Sentou-se à mesa do Largo, situado à frente do colégio Barão do Rio Branco
e pediu:
- Cerveja!
À primeira garrafa seguiram-se tantas outras que, depois de algum  tempo, a
própria mesa já era uma festa. Ficou alegre, dizia gracejos às garçonetes.
Ouviu tantos fogos de artifício, e viu tantas pessoas que iam em procissão lá na
outra extremidade, que perguntou a um casal que passava:
- O Círio agora é à noite?
E o homem que passava fechou a cara:
- É a Transladação, herege!
Chamou a garçonete:
- Mais uma cerveja!
O pato é que não achava jeito para dormir com tantos fogos e tanto barulho.
O instinto lhe dizia que era hora de dormir, porque assim acontecia no quintal
da Neuzita, em Cametá: quando a noite vinha chegando as criações do Edgar
se acomodavam para dormir. Mas, ali, não era possível pela confusão reinante.
Foi por isso que colocou a cabeça fora do paneiro, para melhor apreciar o que
estava acontecendo. Foi exatamente quando passava um cachorro vira-lata, que
teve a infelicidade de cheirar o paneiro para examinar seu conteúdo e recebeu,
no mesmo momento, uma bicada tão violenta que saiu ganindo e saltando de
uma perna só.
O pato forçou um pouco mais e saiu do paneiro. Sacudiu as asas e ficou a
olhar os acontecimentos. Três barracas adiante da que estava, uma mulher
gorda preparava a massa para fazer pastéis em grande quantidade. O suor se
avolumava na testa, e ela o retirava com o dedo em forma de gancho ".

Continua na próxima postagem...

Um ótimo final de semana a todos.
Grande abraço,

Clóvis de Guarajuba
ONG Ande & Limpe

sexta-feira, 3 de novembro de 2017

- MIOLO DE PÃO - V -


" O menino de rua quase 
desistiu de pedir de porta em 
porta qualquer coisa para matar 
a fome. Surpreendeu-se, depois 
de várias horas, quando alguém
teve piedade e lhe repassou 
alguns pedaços de pão dormido. 
Pão tão ruim, que só a fome o 
obrigou a colocar alguns pedaços 
na boca, enquanto caminhava.
Ao passar diante da velha igreja 
da Sé, uma leve aragem 
espalhava cheiro do pão pela 
redondeza, dificil odor só 
percebido por poucos. 
O menino caminhava sem 
destino certo, devagar, segurando 
o pão displicentemente, quando 
foi  surpreendido por uma violenta 
bicada que levou parte do pão.
Pulou para trás e procurou verificar 
de onde vinha o ataque. 



O pato, que tinha engolido o que conquistara com valentia, preparava-se para o 
segundo ataque. O menino riu.
- Gosta de pão, danado!
Ao pensar que o bicho talvez estivesse também com fome, jogou um pedaço da
casca. O pato cheirou a oferta e a desprezou. O menino retirou uma parte do
miolo e fez uma pequena bola e jogou para o pato. Ele comeu, com sofreguidão.
- Gosta só de miolo? - perguntou o menino.
Ao ouvir a palavra mágica, Miolo de Pão sacudiu a traseira e grasnou, talvez
lembrando-se de uma menina que costumava alimentá-lo enquanto alisava sua
cabeça e suas asas. Depois de dar  todo o miolo de pão dormido para o animal, 
o menino foi embora 
assobiando, enquanto o pato o olhava agradecidamente, dando mais uma
saraivada de sujeira na calçada de pedras.

O homem bebido, como se 
estivesse morto, nada viu. 
A única coisa que o ligava
ao mundo dos vivos era o 
ressonar alto, o que o levava, 
de espaço a espaço, a
entreabrir a boca, por onde 
passavam finos sopros, em 
forma de roncos.Ao cair da 
tarde, quando já chegavam 
alguns fiéis para a missa, ele 
despertou. Espreguiçou-se, 
olhou para o paneiro, levantou-se 
e disse:
- Vamos embora, imbecil!
Como o efeito da bebida já 
tinha passado, saiu andando 
firme e segurando o pato, sem 
notar que a boca do paneiro já 
estava aberta, por onde o 
pato tinha voltado a entrar, 
depois de comer miolo de pão. "



Continua na próxima postagem...

Bom final de semana aos meus amigos e visitantes. Obrigado pelas visitas.
Abraço,

Clóvis de Guarajuba
ONG Ande & Limpe

sexta-feira, 27 de outubro de 2017

- MIOLO DE PÃO - IV -



" Quase em frente ao Colégio do
Carmo, o peso do paneiro dizia
que era um patarrão. E começou
a pensar: " Não preciso de tanta
carne de pato em casa, o certo
seria a metade do animal, já que
é muito grande. Poderia vendê-lo
e, com o dinheiro, compraria no
supermercado o tanto de pato
que preciso ". E foi andando com
seus pensamentos. A cidade
estava em sua festa maior,
sentia-se nas feições das pessoas.
Os táxis chegavam e saiam lotados.
Teve um último pensamento:
" Depois, não fica bem, eu fardado
carregando um pato pelas ruas da
cidade "... Um homem bastante
bebido tentava retirar uma cédula
de um pacote de notas.



- Quer vender o pato?
- Sim - disse o guarda.
Ajustaram o preço, e o homem da lei saiu andando com a consciência serena
e o dinheiro no bolso.
O bêbado pegou o paneiro do pato e falou alto:
- A mulher é que vai gostar! Vamos lá, seu imbecil.
E saiu andando entre os romeiros com alguma dificuldade.
Quando pisou na calçada da igreja da Sé, o sol já ia muito alto e o calor
respeitável. Uma suave música fez com que olhasse para dentro da igreja.
De onde vinha som tão bonito? Não soube identificar. Olhou um pouco mais
para dentro, e ficou parado por alguns instantes.
Uma paz suave dominou o bêbado. Ele não sabia que eram os dedos do
padre Cláudio Barradas, fazendo o instrumento soltar os sons musicais de
Mozart, acompanhado da voz do pastor.. E Mozart era tão celestial e suave,
que o bebaça foi se encostando na parede da centenária igreja, lembrando-se
de sua mãe nos Círios passados, quando acompanhava a procissão levado
pela mão materna.. Ou a música ou o calor daquelas horas, ou as lembranças
da véspera do Círio de Nossa Senhora de Nazaré, foram amolecendo o
homem, que colocou o pato ao lado e foi se arriando na calçada.

O pato sentiu que alguma coisa estava acontecendo, não só pela suave e bela
música, como porque o mundo deixou de balançar quando o paneiro foi colocado
no chão morno. Por isso tratou de alargar a passagem das talas da boca do
paneiro. E tantas fez, e empurrou tanto, que conseguiu primeiro passar a cabeça,
e, só depois, conseguiu passar o corpo, sacudindo-se todo, ao sonhar com
água corrente. Ficou do lado do tonto e do paneiro, amedrontado com aquele
mundo desconhecido ao ouvir os passos das pessoas e vendo o velho casario
da igreja de Santo Alexandre, bem como a entrada do forte do Castelo ".

Continua na próxima postagem...

Um grande abraço a todos e obrigado pela visita. Bom final de semana.

Clóvis de Guarajuba
ONG Ande & Limpe