sexta-feira, 30 de junho de 2017

A história da professora AFONSINA - VII -



O autor com o irmão, no dia da sua posse na Academia.


                           Faculdade de Direito onde se formou o homenageado nesta postagem.
                                         - Assim era o Largo da Trindade na década de 1960 -


Antes de começar a narrativa da história da minha mãe, permitam-me apresentar alguns dados
biográficos daquele bebê, meu irmão, a quem aprendi a amar desde a mais tenra idade, único
sobrevivente do relacionamento de FRANCISCO com a saudosa LAURINDA, sua primeira
esposa:

     
                                              J O S É    F I G U E I R E D O    D E    SOUSA

Nascido na cidade de Oriximiná, no dia 01.08.1935;
Cursou o primário no Grupo Escolar Pe. José Nicolino, em Oriximiná;
Cursou o ginásio e científico no Colégio Salesiano Na Sa do Carmo e no Colégio 

Estadual Paes de Carvalho, em Belém;
Formou-se em Direito, em 1960, pela antiga Faculdade de Direito da Universidade do Estado do Pará; ( vide foto ilustrativa ).
Em 24.12.1977, foi agraciado com o Diploma Comemorativo do Primeiro Centenário de Oriximiná, diploma este assinado pelo então Prefeito do Município, Raimundo José Figueiredo de Oliveira; 
Agraciado com a insígnia Ordem do Mérito "Just et Labor ", pelo emérito Tribunal Regional do Trabalho da Oitava Região;
Em 19.12.2002, recebeu o título de " Cidadão de Belém ", conferido pela Câmara de Vereadores da Cidade de Belém;
Em 04.11.2004, recebeu o título de " Personalidade Pará 2004 ", concedido pelo Conselho de Profissionais do Estado do Pará;
Em 17.12.2004, foi agraciado pela Assembléia Legislativa do Estado do Pará, com o diploma e comenda " Ordem do Mérito Cabanagem ";
Eleito para a Academia Paraense de Letras, tomou posse da cadeira número 14, - cujo o primeiro ocupante e fundador foi Enéas Martins - no dia 04.11.2011 ( vide foto ilustrativa );
Já em 17.12.2009, por ocasião do recebimento da medalha " José Veríssimo", como numa premonição, declarou no seu discurso de  agradecimento à  Academia  Paraense  de  Letras: " Um dia, quem sabe, meu torrão natal também revelará ao mundo seus intelectuais! ";
Terminou seu discurso de posse na Academia, dizendo: " Oriximiná, com muito orgulho, a partir de agora, possui um legitimo representante na Academia Paraense de Letras! ".
Obras principais:
Nossa Viagem ao Oriente;
No Caminho de Deus e dos Homens;
Nosso Sonho Escandinavo;
Y.Yamada, uma História de Trabalho e Sucesso;
Poemas da Minha Juventude;
Alem de inúmeros artigos e reportagens publicados no antigo jornal O Liberal e na Folha do Norte.

Da Floresta Amazônica à Savana Africana, publicado em 2017- sua mais recente criação -.

Nesta postagem todos os seus irmãos pelo lado paterno, prestamos, por meu intermédio, as nossas justas e merecidas homenagens ao nosso irmão mais velho. Você é um dos nossos orgulhos e referências!!!



sexta-feira, 23 de junho de 2017

- LUTO... CLENALDO FRANCISCO ARAGÃO DE SOUZA - 11.10.1945 a 22.06.2017 -

                     
                              Meu irmão e eu, naquele papo que " decide o destino do mundo "...



 Arrasado emocionalmente, vejo-me obrigado a interromper a narrativa da história de vida da minha mãe, para falar sobre seu terceiro filho, o meu amado irmão CLENALDO FRANCISCO ARAGÃO DE SOUZA , que acaba de perder a luta travada bravamente contra o câncer, mal terrível que vem desafiando a ciência médica mais avançada e ceifando a vida de muitas pessoas, que, como ele, primaram pela correção e comprometimento com as coisas certas, em sua profícua e feliz passagem por esta vida.
Não quero, porém, falar sobre sua morte e sim dizer da minha admiração, assim como da admiração de todos os que tiveram o privilégio de conhecê-lo. Trata-se de ser humano incrível, capaz de semear o bem querer e a harmonia, em todos os lugares por que passou. Homem trabalhador e constante, passou uma boa parte de sua fecunda vida, prestando seus serviços profissionais e competentes, nas minas de bauxita em sua terra natal, Oriximiná, onde começou exatamente na instalação da empresa,
ficando nela até se aposentar. Foram décadas de dedicação que lhe proporcionaram percorrer o caminho que percorrem todos os profissionais competentes, começando como simples ajudante e alcançando a chefia de diversos departamentos.
E foi na cidade-modelo de Porto Trombetas, sede da subsidiária da Vale do Rio Doce, denominada Mineração Rio do Norte, no Município de Oriximiná, Estado do Pará, que formou sua família e criou seus 5 filhos. Ao seguirem o exemplo do pai, tornaram-se todos, mulheres e homens, seres humanos úteis, produtivos e queridos por todas as pessoas do seu convívio.
Tive o enorme prazer de visitá-lo e aos seus, por diversas vezes lá em Trombetas, sendo sempre recebido com a fidalguia e atenção que suplantavam os limites da gentileza. Lembro-me do orgulho que sentia quando, mesmo cheio de afazeres inerentes ao cargo, me levava em seu veículo de trabalho, para mostrar a grandiosidade das minas e a enormidade e complexidade dos equipamentos empregados na exploração do minério, tecnologia de primeiro mundo, encravada no coração da selva amazônica !



                                        O nosso CLEY cantando em um dos seus aniversários



 Lembro de seu orgulho e entusiasmo, ao me mostrar a estação de tratamento do esgoto da cidade, que devolve ao Rio Trombetas águas mais limpas do que as recolhidas para uso.
Obrigado meu amado irmão e amigo. Segue tranquilo rumo ao cosmos, na certeza que cumpriste magistralmente o papel que a vida te confiou.
Jamais, enquanto viver, deixarei de reverenciar tua imagem que, na minha retina, guarda aquele CLENALDO ativo e cheio de vida que acompanhei, como irmão mais velho, por um breve período, já que demos rumos diferenciados às nossas existências!
Te amo !!!

Aos meus amigos leitores digo:
Até a próxima sexta-feira

sexta-feira, 16 de junho de 2017

A história da professora AFONSINA -VI -



                                                                     Foto Internet


Os primeiros sinais sentidos indicando que o bebê precisava vir à luz, foram verificados ao
amanhecer do dia 01.08.1935. Um misto de euforia e preocupação invadiu a casa. Já haviam
vivenciado, num passado recente, um trauma terrível, daí a preocupação. A euforia, porém,
venceu e,  rezando baixinho, estavam esperando as notícias vindas do quarto por intermédio
da parteira, d. Lucila - por muitos chamada carinhosamente de " mãe Lucila " - cuja experiência
já fora comprovada ao longo de vinte e muitos anos trazendo à luz os nascidos na cidade e até
em alguns lugares do interior. E, finalmente, a notícia: nascera, sem nenhuma intercorrência, um
robusto e belo menino! Ambos, parturiente e recém nascido, estavam muito bem, obrigado!
E o tempo passou assistindo a felicidade novamente reinar naquela família. FRANCISCO
seguia trabalhando muito, como sempre, e agora com outros encargos correspondentes à
administração da fazenda do sogro, localizada à margem direita do rio Cachoeiri, onde havia
um rebanho de bovinos, e que servia mais de recreação para a família do que como geradora
de recursos, já consideráveis, advindos dos castanhais. O preço da castanha do Pará, por
sinal, subira ano a ano, proporcionalmente ao aumento do interesse dos compradores, agora
já exportada para os EE.UU que descobriram no seu consumo inúmeros benefícios à saúde e
 ao paladar, passando a figurar como um dos principais componentes na elaboração de
biscoitos, bombons e doces em geral.
Os cuidados dedicados ao pequeno JOSÉ - sim! este foi o nome escolhido à unanimidade,
 para homenagear o avô - eram tantos e de tal monta que, por alguma razão misteriosa
 que  a natureza esconde e espera até hoje pela decifração por parte de nós humanos,
apesar de todo  o amor existente entre o casal, uma nova gravidez só se verificaria
 quatro anos depois, no ano de 1939.
Esta terceira gravidez, tal qual as outras anteriores, transcorreu sem  nenhum
problema a não ser aqueles já referidos e comuns a todas as grávidas. E chegou
o dia esperado ansiosamente por todos. Os sinais de que o bebê começara a tentar abrir
  caminho em direção ao mundo exterior, tiveram início por volta das dez horas da noite
do dia trinta e um de julho de 1939 mas, ao amanhecer do dia seguinte, apesar
do gigantesco esforço de todos e, principalmente da parturiente, todas as tentativas foram
frustradas. A mãe e a criança ( era uma menina ), acabaram por sucumbir, inclusive pela
ausência de um médico na cidade. A revolta se fez sentir, imediatamente e os familiares,
enquanto providenciavam o múltiplo funeral, instaram veementemente às autoridades,
exigindo gestões urgentes com o objetivo de prover a cidade com a presença de um
profissional graduado de saúde. Tal a força e o peso da família junto às autoridades, que
logo no início do ano de 1940, foi designado um médico para a cidade. E este médico,
que se chamava Dr. DURVAL BRUZZA, chegou à Oriximiná, trazendo consigo sua esposa,
 minha tia mais velha, por parte de mãe, MARIA RITA RODRIGUES DE ARAGÃO que,
com o casamento, passou a chamar-se MARIA RITA DE ARAGÃO BRUZZA
- chamada  carinhosamente pela sua família de  MEIRY ou MANA, naturalmente
por ser a mais velha dos filhos do  casal LEONEL XIMENES DE ARAGÃO e
CARMEN RODRIGUES DE ARAGÃO,  meus avós maternos -.
E aí começa, verdadeiramente, a história da minha saudosa mãe -  AFONSINA ELINDA ARAGÃO DE SOUZA
 - em sua passagem pela cidade de Oriximiná, chamada carinhosamente pelos seus filhos,
de " A Princesa do Trombetas "...

                                                     
Continua na próxima sexta-feira...
Bom final de semana a todos.

sexta-feira, 9 de junho de 2017

A história da Professora AFONSINA - V -



        Meu jovem amigo ARAUAQUE e eu chegando ao antigo
        barracão, construído pelo papai.

         Meu sobrinho CLEY e eu, no interior do barracão.
                     (note-se que já não existe assoalho)

A confirmação da gravidez da LAURINDA, a segunda, trouxe novo ânimo a todos os 
familiares. Como é natural, aumentaram-se os cuidados com a parturiente cobrando-se, até 
dela própria, a observância de regras mais rígidas para o seu dia a dia. Alimentação rica e 
variada, tomada nas horas certas e nada de muito esforço ou longas caminhadas. Claro que 
tais atitudes da família não tinham razão de ser, pois o que ocorreu com a criança que 
morrera, nada tinha a ver com o comportamento, alimentação ou qualquer outra atitude da 
parturiente, como é fácil deduzir.  A criança morrera, como eu próprio teria morrido se tivesse 
nascido uns  10 ou 20 anos antes do meu próprio nascimento, porque a tecnologia que me
mantem vivo até hoje (o marcapasso), não existia e, fatalmente, já estaria morto, vítima de uma 
parada cardíaca durante o sono. A criança morrera, dizia, porque Alexander  Fleming, escocês 
( 06.11.1881 a 11.03.1955 ), apesar de ter casualmente descoberto a penicilina - primeiro 
antibiótico - em 1928, sua produção industrial como fármaco, só começou em 1938 nos 
EE.UU., isto é, quatro anos depois do infausto acontecimento. E a gravidez transcorreria 
sem nenhuma intercorrência, a  não ser pelas sempre presentes náuseas, comuns nos meses 
iniciais... Naquele ano, como que para comemorar antecipadamente a chegada de outro filho 
(ou seria filha ?...), a safra da castanha do Pará foi das mais generosas. Com isto, o trabalho 
de todos foi proporcionalmente maior, exigindo algumas viagens extras para trazer até a 
cidade, no " batelão "*, as castanhas que, por sua enorme quantidade, abarrotavam o barracão 
construído às margens do lago. As atribulações foram tantas, que FRANCISCO decidiu 
que construiria, naquele ano, um outro barracão, desta vez com uma estrutura definitiva e 
com capacidade de armazenamento dobrada. A construção foi de tal maneira caprichada, 
que até hoje permaneceria utilizável, não fora o vandalismo perpetrado por caçadores e 
pescadores que, não tendo a mínima consciência, usam a sua medeira fácil para fazer 
fogueira, ao lá acamparem para passar a noite! Não imaginam o trabalho, o sacrifício e o 
dinheiro que foram feitos e gastos para trazer da cidade os materiais corriqueiros e da 
capital, Belém, as telhas, que até hoje cobrem o barracão. (Estive no local, no ano de 
2002, conforme as fotos que ilustram esta postagem).
 E o ano de 1935 já ia lá pela metade quando, sabendo que o parto estava próximo,
foram providenciados todos os requisitos exigidos para uma feliz " délivrance "...


* BATELÃO - Grande embarcação desprovida de motor, que serve para transportar
 qualquer tipo de carga e que é rebocado ou empurrado por barcos motorizados.

                                                             
Continua a próxima sexta-feira.
Bom fim de semana a todos.

sexta-feira, 2 de junho de 2017

A história da Professora AFONSINA - IV -


Imagem Internet

Os costumes muito rígidos da época, não permitiam nenhum encontro dos jovens noivos a sós.
 " Namorar " e até " Noivar ", tinham um significado que mantinha uma distância cósmica com o que hoje se pensa e acontece. No namoro, o respeito à integridade física e moral da namorada era sempre observado, mesmo porque a moça, recatada e " de família ", não permitia nem a mais inocente intimidade. Pegar na mão da jovem era um acontecimento que levava o namorado a dar pulos de alegria, na primeira oportunidade em que se encontrasse sozinho! Já o noivado era constituído pela permissão que o pai da jovem concedia ao noivo para frequentar sua casa, sentar-se, geralmente num sofá,ocupando um extremo, enquanto a noiva sentava no outro lado e, ainda assim, com a presença de algum adulto da família da pretendida - geralmente a mãe a fazer crochê -.
Por conta desses costumes, os casamentos aconteciam num prazo relativamente curto, considerando-se o dia em que a jovem - com a anuência do pai - aceitara o " pedido de casamento ". É que o noivo, geralmente apaixonado, como é natural, tinha urgência em " consumar o casamento ".
E vieram as núpcias de LAURINDA e FRANCISCO, festejadas com toda a pompa que o pequeno lugarejo podia oferecer. Mataram-se boi e porco. Há quem afirme que um peixe-boi foi servido, transformado que fora no mês anterior, em uma deliciosa " mixira ". ( E olha a água na boca do autor... ).* Uma enorme tartaruga ( olha a água teimosa novamente ), trazida pelo noivo lá do lago do Erepecu - mais precisamente do " tabuleiro "** - completavam o lauto almoço oferecido no dia seguinte pelo pai da noiva, a praticamente todos os habitantes da pequena cidade. É que todos se conheciam e, sem necessidade de convites, os que chegassem eram sempre bem-vindos. As comemorações estenderam-se por quase uma semana ao final da qual os noivos finalmente puderam se concentrar um no outro.
E tudo transcorria tal qual os dois haviam imaginado. A primeira gravidez da jovem esposa aconteceu lá pelo início do ano de 1934. Motivo de muita alegria para todos, especialmente para o casal; o primeiro filho  ( ou seria filha?...), prometia inundar aquele lar com a luz própria de todo bebê, aumentando assim a felicidade que já era incomensurável. A vida, porém, como que para trazer o casal de volta à realidade mundana - já que viviam num paraíso de felicidade - e ajudada pela falta de recurso médicos e farmacêuticos da época, acabou por ceifar a vida da recém nascida ( sim, era uma menina!!! ), tornando-a  vítima, como era muito comum naqueles tempos, do chamado " mal dos sete dias ".
 A superação de tão angustiante golpe exigiu muito amor e dedicação do casal assim como o carinho de todo o restante da família. E, na medida do possível, a alegria voltou timidamente àquele lar, coroando a recuperação emocional dos dois, nas festas de fim de ano, quando já se desconfiava que a jovem esposa estava novamente grávida!...


* MIXIRA- Método usado para conservação de carnes, que consiste em retirar a gordura do animal, fritando a seu toucinho, retirando o torresmo remanescente e fritando a carne a ser conservada na banha resultante, findo o que se coloca toda a carne já frita, juntamente com a banha, dentro de um recipiente de tamanho proporcional à quantidade a ser conservada e depois de esperar tudo esfriar, tampa-se o recipiente para só abri-lo na ocasião em que necessitar usar as porções.

** TABULEIRO - Banco de areia localizado ao largo do Lago do Erepecu, utilizado pelas tartarugas em sua desova anual. Conta-se que durante a desova, é impossível se visualizar a areia, tal a quantidade de tartarugas desovando ao mesmo tempo, em noites sucessivas.


                                                                     
Continua na próxima sexta-feira...
Bom fim de semana a todos.