sexta-feira, 22 de setembro de 2017

ORGIA: SEM SABER O QUE É, NÃO PARTICIPE!...


                                                                    Imagem Internet


No dia 11 de agosto de 2003, segundo inquerito policial, o Oliveira embriagou seu amigo Silva
e em seguida levou ele e sua mulher, Ednair Alves de Assis, a uma construção localizada no
parque Las Vegas (o nome tem tudo a ver...), em Bela vista de Goias. Lá, obrigou o amigo e
a mulher a se despirem e praticarem sexo, dizendo que queria fazer uma " suruba ". Logo a seguir,
Oliveira teria aproveitado para fazer sexo anal no amigo. O Silva, ao passar o porre, foi prestar
queixa na delegacia que abriu o competente inquérito e remeteu para a Justiça. Abaixo vou
reproduzir ad literum, o acórdão do Tribunal de Justiça de Goiás, publicado no dia 6 de julho
de 2004. Achei um barato!

"Apelação criminal. Atentado violento ao pudor. Sexo grupal. Absolvição. Ausencia
de dolo.

1- A pratica de sexo grupal é ato que agride a moral e os costumes minimamente civilizados.

2- Se o individuo, de forma voluntária e espontânea, participa de orgia promovida por amigos
seus, não pode ao final do contubernio dizer-se vítima de atentado violento ao pudor.

3- Quem procura satisfazer a volupia sua ou de outrem, aderindo ao desregramento de um
bacanal, submete-se conscientemente a desempenhar o papel de sujeito ativo ou passivo, tal é
a inexigencia de moralidade e recto neste tipo de confraternização.

4- Diante de um ato induvidosamente imoral, mas que não configura o crime noticiado na denúncia,
não pode dizer-se vítima de atentado violento ao pudor aquele que no final da orgia viu-se alvo
passivo do ato sexual.

5- Esse tipo de conchavo concupiscente, em razão de sua previsibilidade e consentimento prévio,
afasta as figuras do dolo e da coação.

6- Absolvição mantida. Apelação ministerial improvida."

O relator foi o Desembargador Paulo Teles.

Como reproduzi fielmente, me abstive de reparar a concordância da " bacanal " que é feminino.


Abraço e bom final de semana.
Até sexta-feira.


sexta-feira, 15 de setembro de 2017

- DIÁRIO DE UMA CRIANÇA ASSASSINADA...



- Dia 05 de outubro - Hoje teve início a minha vida. Papai e mamãe ainda não sabem. Sou menor que a cabeça de um alfinete, mas já sei: vou ter os olhos iguais aos do papai e meus cabelos serão castanhos e ondulados, iguais aos da mamãe.

- Dia 19 de outubro - Hoje começa a abertura da minha boquinha. Que bom! Dentro de um ano vou poder sorrir, quando meus pais se inclinarem sobre meu bercinho! Minha primeira palavra será " mamã "...

- Dia 23 de outubro - Ih! Meu coração começou a bater!...e continuará a exercer sua função, sem parar jamais, sem descanso, até o fim da minha vida; um grande milagre da natureza!

- Dia 02 de novembro - Meus braços e minhas perninhas começam a crescer e vão continuar crescendo, até ficarem perfeitos.

- Dia 12 de novembro - Oh! Agora, nas minhas mãozinhas, as unhas estão despontando... que beleza!!!

- Dia 29 de novembro - Hoje, pela primeira vez, a mamãe percebeu, pelas batidas do seu coração, que me traz no seu ventre. Imaginem a imensa alegria que seu coração deve  estar experimentando!!!

- Dia 03 de dezembro - Todos os meus órgãos estão totalmente formados... Ih! já estou ficando grandinha!...

- Dia 11 de dezembro - Logo mais já poderei perceber a luz, as cores e até as flores. Deve ser tudo tão bonito!... Mas o que me enche mesmo de imensa alegria, é pensar que poderei ver minha mamãe!...

- Dia 12 de dezembro - Crescem-me os cabelos e as sobrancelhas. Como ficará feliz e contente a minha mãezinha com a chegada de sua filhinha querida!

- Dia 24 de dezembro - Ih! Meu coração está totalmente pronto. Vou ser uma menina cheia de vida e com muita saúde! Todos vão ficar radiantes com o meu nascimento.

- Dia 28 de dezembro - Ah! O que é isto?!!!!
 HOJE, MINHA MÃE ME MATOU!!!...



                                                     Isto é o horror do aborto! 

sexta-feira, 8 de setembro de 2017

RENÚNCIA À MINHA CONDIÇÃO DE ADULTO!!! - reedição -

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                                                              Imagem da Internet


Venho, por meio desta, renunciar INCONDICIONALMENTE à
minha condição de adulto! Resolvi que quero voltar a ter as mesmas
ideias e responsabilidades de uma criança de oito, nove anos. Quero
voltar a acreditar que o mundo é justo e que todas as pessoas são
honestas e boas; quero acreditar que tudo é possível; quero voltar a
não perceber as complexidades da vida e quero ficar maravilhado
com as pequenas coisas naturais que me encantavam; quero de volta
aquela vida simples e sem complicações. Cancei de computadores
que falham ou são lentos, das pilhas de papeis, das noticias
deprimentes, das CPIs, políticos ladrões, atentados, novos impostos, empregados
desonestos, patrões sacanas, contas a pagar, fofocas, doenças, mortes
de contemporâneos e de parentes e de ter que atribuir valor monetário
a tudo que me cerca. Não quero mais me preocupar em arranjar um
jeito de fazer o salário durar até o próximo pagamento e nem de ficar
torcendo para que aquele cara que me deve, pague no dia COMBINADO. Não quero
mais ser obrigado a dizer adeus à pessoas queridas e, com elas, a
uma parte da minha vida. Quero ir ao carrinho de cachorro-quente
ou à pizzaria e comer, achando que esses locais são bem melhores do
que aquele restaurante de luxo. Quero viajar ao redor do mundo mas,
desta vez, embarcado no meu naviozinho de papel que estou
navegando naquela poça ou na correnteza da vala, provocada pela chuva.
Quero poder jogar pedrinhas na lagoa tranquila e ter tempo para
observar as ondinhas que provocam. Quero achar que as moedas de
chocolate são mais valiosas que as de um real, porque posso
comê-las e ficar com a cara toda lambuzada. Quero ficar felíz
quando amadurece o primeiro caju ou a primeira manga, quando a
jabuticabeira fica com o tronco pretinho de frutas. Quero voltar
a achar que chicletes e sorvetes sao as melhores coisas da vida.
Quero que as maiores competições em que tenha de entrar, sejam uma
boa pelada ou uma disputa de pião, peteca ou bola de gude. Quero
voltar ao tempo em que tudo que eu sabia era o nome das cores, a
tabuada, as cantigas de roda, a " Batatinha quando nasce..." e o
"Pai nosso..." e isso não me incomodava nada porque eu não tinha
nem ideia de quantas coisas inúteis ainda ia aprender. Voltar ao
tempo em que se é feliz, simplesmente porque se vive na bendita
ignorância da existência de coisas que podem nos preocupar,
aborrecer ou magoar. Eu quero voltar a acreditar no poder de um
sorriso, de um abraço, de um agrado, de palavras gentis, da verdade,
da justiça, da paz, dos sonhos, da imaginação, dos castelos no ar
ou na areia. E mais: quero estar convencido de que tudo isso vale
muito mais do que o dinheiro! Por isso tudo é que eu digo: peguem
aqui as chaves do carro, a lista do supermercado, as receitas
médicas, os talões de cheque, os cartões de crédito, o contra-cheque,
os crachás de identificação, o pacotão de contas a pagar, a
declaração do imposto de renda, as senhas do meu computador e
dos bancos e resolvam as coisas do jeito que bem entenderem! A
partir de hoje, isso tudo é com vocês, porque:
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ESTOU ME DEMITINDO DA VIDA DE ADULTO!!!.  

Agora, se você quiser discutir a questão, vai ter de me achar, porque
vou brincar de esconde-esconde... e é a minha vez de me esconder!...
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Um ótimo final e semana , abraço a todos os amigos e visitantes.
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Clóvis e GuarajubaONG Ande & Limpe

sexta-feira, 1 de setembro de 2017

A história da Professora AFONSINA - final -

                            A Professora AFONSINA, à época de sua passagem por Oriximiná.


Para encerrar com chave de ouro a magnífica e resumida história da Professora AFONSINA em sua passagem marcante pela cidade de Oriximiná, passo a narrar, de maneira também sucinta, um episódio tão ou mais marcante do que aquele do lançamento da semente da " merenda escolar ", protagonizado pela notável mulher que, pra meu orgulho, me gerou:
Preciso dizer que quis o destino trazer para dirigir os trabalhos da Escola de Educação Infantil
Professora AFONSINA ELINDA ARAGÃO DE SOUZA, uma mestra igualmente abnegada e caprichosa, a Professora LEILEUNICE WANZELLER, cuja dedicação e competência tornaram a Escola um exemplo de eficiência e profissionalismo. Pois bem, o episódio que passo a narrar - vejam só que feliz coincidência - me foi comunicado por ela, a Diretora, tendo como sua fonte de informação, ninguém menos que sua própria mãe!
Há uma família que vive na cidade desde a metade do século passado, sendo que muitos de seus membros são cidadãos e cidadãs de destaque na sociedade local, ainda hoje. Pois bem, lá pelo final da década de 1940 e inicio de 1950, adoeceu gravemente uma das filhas do casal, cabeça desta família.Doença grave e não diagnosticada à  época, passou a ser tratada com medicamentos tradicionais e até com plantas medicinais, amplamente usadas com eficácia em muitos e muitos casos de enfermidade. Infelizmente, a tal doença misteriosa não cedeu e levou a pequena e desditosa vítima a óbito. Pode-se imaginar facilmente o sofrimento que acometeu a família enlutada que, compreensivelmente, ficou por algum tempo desnorteada e sem poder raciocinar com clareza. Foi aí que apareceu a clarividência da Professora AFONSINA, uma das colaboradoras no ingente mas  frustrado esforço para salvar a vida da menina. Como ninguém sabia de que moléstia a vítima fora acometida, D. AFONSINA sugeriu a transferência de todos os membros da família para a sua própria casa - o que foi aceito prontamente e com muita gratidão - enquanto, sob seu comando, se providenciava a desinfecção completa e à exaustão, da casa da família, o que durou por volta de uma semana, finda a qual, pode a família retornar ao lar, sem risco de possível contaminação pelos agentes patológicos desconhecidos e possivelmente remanescentes, de evidente perigo, desde que não erradicados.
Ora, meus amigos e leitores, como não se orgulhar de uma mulher dessa têmpera !
Somos, meus irmãos e eu, pessoas privilegiadas e orgulhosas de nossa mãe, heroína e mulher de iniciativas e ações muito à frente do seu tempo!!!
Sempre enalteceremos seus feitos, tendo toda a certeza que ela não teve uma passagem em branco pela sua vida e nem pela vida da cidade que a acolheu como se sua filha fosse!

Bom fim de semana.
Até a próxima sexta-feira.










sexta-feira, 25 de agosto de 2017

- A história da Professora AFONSINA - XV -


Eu e meu irmão CLÉO, posando orgulhosamente na frente da Escola
PROFESSORA AFONSINA ARAGÃO, no dia de sua inauguração.




A " Turma da Fome ",
 como é evidente, foi
assim designada porque
 seu funcionamento
abrangia a chamada
" hora do almoço ".
 Tal apelido era um estigma pejorativamente
 repetido pelos alunos que frequentavam as aulas nas
turmas consideradas " normais ",
 isto é, as dos horários
 matutino e vespertino.
É evidente que tal circunstância  gerava grande consternação e constrangimento em todos os alunos e, principalmente, nos professores, destacando-se, por motivos óbvios, na Professora AFONSINA, responsável pela turma.
De tal fato eu não tinha nenhum conhecimento, até que no ano de 2011, quando fui passar a " Festa
de Agosto " lá em Oriximiná - o lindo e famoso Círio Fluvial - em determinada noite, no arraial da Praça  da Matriz, conversando com alguns conhecidos, me foi contada toda a história desta turma intermediária, por alguém que participou da mesma. Contou-me ele - hoje um respeitável e importante membro da sociedade local - que a sua Professora, D. AFONSINA, em determinado dia, chegou ao Grupo trazendo para a sala de aula, com a ajuda do meu irmão DEZIZÉ, algumas latas de leite Ninho que foram colocadas sobre a mesa. Todos ficaram naturalmente curiosos e esperavam ter uma explicação para o ato inusitado da mestra. Ela nada disse, até que chegou a hora do intervalo. Só então explicou aos alunos que resolvera trazer-lhes uma merenda e, incontinente, passou a distribuir com todos. Feita a devida fila, encarregou alguém da turma para proceder à distribuição do alimento, sob sua atenta supervisão. Ou seja, numa época em que sequer se cogitava em merenda escolar, a Professora AFONSINA, sob suas expensas, instituiu algo que certamente evitou a evasão escolar que, embora pequena naquela época, sempre ocorria por necessidades extremas e carências de alguns alunos. Claro que esta narrativa, feita com a mais absoluta isenção, me provocou uma emoção tal, que acabei por perder a voz e chorar... Abracei de maneira efusiva o narrador  e disse-lhe que aquele fato aumentava significativamente em mim, o já imensurável orgulho e admiração que tenho, por ter sido gerado por alguém tão especial!
Lamentavelmente, foi preciso que uma ex-aluna da Professora AFONSINA, a ilustre Professora Doutora HILDA VIANA, assumisse a Secretaria de Educação do Município de Oriximiná, para que houvesse o reconhecimento dos méritos e das iniciativas filantrópicas e pioneiras da Professora AFONSINA, consubstanciado na inauguração de uma escola modelo com o nome da ilustre mestra. Para minha imensa emoção e orgulho, fui destacado, na condição de seu filho mais velho ainda vivo, para representar a família da homenageada, o que fiz na companhia de meu querido irmão CLÉO AFONSO ARAGÃO DE SOUZA, certamente tomado por um orgulho e uma emoção igualmente indescritíveis!
Sou mesmo um privilegiado porque poucas pessoas têm na família DOIS IMORTAIS:
Um irmão, membro da Academia Paraense de Letras - JOSÉ FIGUEIREDO DE SOUZA e
minha mãe, imortalizada no nome de uma escola - AFONSINA ELINDA ARAGÃO DE SOUZA!!!

Em tempo: eu próprio acabo de ser também imortalizado através da publicação de um comentário que fiz, sem nenhuma pretensão, sobre uma das obras - Miolo de Pão - do grande escritor e membro da Academia Paraense de Letras, AGILDO MONTEIRO CAVALCANTE. O generoso escritor e acadêmico, usou meus comentários para compor a contracapa de seu mais novo livro, o recém lançado, " A LUZ MISTERIOSA ".                                                                  

                                                                 
Bom final de semana a todos e
até a próxima sexta.

  

sexta-feira, 18 de agosto de 2017

- A história da Professora AFONSINA - XIV -


                            Neste prédio funcionava o Grupo Escolar Padre José Nicolino.
                                                        - Foto de Edilberto Guerreiro -


Lá por volta do ano de 1950, apesar de já cheia de afazeres, AFONSINA começou a ensinar ( já de volta à casa da praça da Matriz ), às crianças e jovens da redondeza que a procuravam se queixando de dificuldades no aprendizado regular, ministrado no Grupo Escolar Padre José Nicolino, então, o único estabelecimento de ensino da cidade. Como também não cobrava por este serviço, era natural que, ao tomarem conhecimento do fato, as mães de outros alunos passassem a apresentar seus filhos, igualmente com dificuldades de aprendizado, solicitando à Professora AFONSINA permissão para frequentarem às aulas por ela ministradas na sua própria residência. Daí até ser convidada para lecionar no " grupo ", foi um pulo; logo começava a carreira " oficial " da professora que, tão generosamente, transferia conhecimentos para tantas crianças e jovens - o DEZIZÉ, eu e o CLÉBER, inclusive - de maneira espontânea e eficiente.
Assim se iniciou  a nobre tarefa da AFONSINA, Professora, que consiste em repassar seus conhecimentos didáticos e, principalmente de vida em sociedade e em família, para a juventude, futuro desta mesma sociedade.
Transcorreu aproximadamente um ano, até se descobrir que a população da cidade, em idade escolar, aumentara de maneira surpreendente. O que fazer para absorver tal população, se o espaço físico não acompanhou este crescimento, já que não se construíram outros estabelecimentos de ensino? Uma reunião do corpo docente decidiu que, emergencialmente, criar-se-ia um terceiro turno de aulas que, por não haver energia elétrica contínua e eficiente, não poderia acontecer à noite. Logo surgiu a ideia de implementar-se este novo turno no horário de 10,00 às 14,00 h. Decisão tomada, passou-se a procurar a professora que tomaria conta desta nova turma, constituída pelos alunos que superlotavam as salas de aula das séries mais concorridas. Uma reunião foi convocada para discutir e determinar qual das mestras ficaria encarregada de conduzir a nova turma. Foram inquiridas todas as professoras presentes e nenhuma se apresentou voluntariamente para tal mister. Sob as mais variadas alegações, que iam desde à necessidade de afazeres domésticos até a outros compromissos assumidos para aquele horário, uma a uma das presentes declinou de assumir aquela tarefa. Foi quando a Professora AFONSINA, entendendo que nada seria resolvido sem a confirmação de uma delas para executar tal serviço, se apresentou como voluntária e foi imediata e entusiasticamente " aclamada "  pelas presentes.
 Diga-se de passagem, que tarefas domésticas não faltavam para quem, àquela altura, já tinha cinco filhos e o marido para cuidar, além de continuar a prestar serviços à comunidade na área farmacêutica!
 Logo, logo, a tal turma intermediária, passou a ser estigmatizada pelos outros alunos componentes das turmas consideradas " normais ", cujo funcionamento se verificava nos horários matutino e vespertino. O estigma se materializou no  nome conferido pelos colegas à turma intermediária: " Turma da Fome ". Tal cognome originou uma atitude inusitada da Professora AFONSINA que, por seu significado, estará em destaque na próxima e penúltima postagem...

                                                                   

Até a próxima sexta-feira.
Bom fim de semana a todos.

sexta-feira, 11 de agosto de 2017

- A história da Professora AFONSINA - XIII -


 
            Meu Pai, CHICO MARTINS, na farmácia de sua propriedade onde
             minha mãe AFONSINA o ajudou, lá trabalhando por muitos anos.
         ( desculpem pela qualidade da foto; é a única que tenho daquela época ).



Como já dito, foi minha mãe que descobriu, horrorizada, que já não mais me encontrava sobre
a ponte. Gritou a plenos pulmões, chamando a atenção do meu pai que, incontinente, subiu
na ponte e, sem ter a mínima noção de para que lado eu havia caído, se jogou às cegas e,
para minha felicidade, me encontrou preso de encontro ao caule de algumas canaranas*,
vegetal muito comum naquelas plagas. Paradoxalmente, foi a correnteza violenta do rio que
me salvou: é que sob sua pressão, fiquei preso de encontro a vegetação. Foi por puro
acaso e sorte que meu pai me encontrou, pois as águas do Cachoeiri são de tal modo
carregadas de matéria em suspensão, que é absolutamente impossível enxergar alguma
coisa quando nelas mergulhamos. Fui resgatado aparentemente morto. No desespero que
se seguiu ao resgate, fui sacudido violenta e sucessivamente por meu pai e minha mãe,
até que, após alguns minutos, voltei a respirar, para alivio e felicidade dos dois e
principalmente para minha felicidade...Nunca mais descuidaram de mim e D. Dira foi
advertida para não me perder de vista jamais!
A segunda gravidez não teve sucesso. Nascido prematuro, aquele que se chamaria  
CLODOALDO, não conseguiu sobreviver. Assim, o segundo filho seria o CLÉBER,
nascido em 11 de março de 1943. Infelizmente já o perdemos, num desastre de veículo
ocorrido em 09 de abril de 2006, mercê do trânsito louco e inconsequente dos nossos
dias. Aproveito, então, esta passagem da narrativa, para declinar, em ordem cronológica,
um por um, todos os filhos da Professora AFONSINA; não perca as contas: CLÓVIS
( o autor ), nascido em 18.10.1941; CLÉBER, nascido em 11.03.1943 ( já falecido );
 em 11 de outubro de 1945, nasceu o CLENALDO FRANCISCO ( já falecido );; em 18 de
dezembro de 1948, nasceu o CARLOS LEONEL; em 14 de janeiro de 1954, nascia o  
CLÉO AFONSO; em 02 de março de 1955, finalmente nascia a tão esperada primeira
filha, CLEMENS MARIA; e aí só viriam mais duas filhas: a CLEIDE MARIA, nascida
em 16 de novembro de 1956 e a CLEISY RITA, a caçula, nascida em 24 de abril de
1959.
 É necessário dizer que, além dos filhos e filhas já citados, a Professora  
AFONSINA e o CHICO MARTINS, seu esposo, acolheram, prazerosamente no seio
da família, ainda criança, o DEZIZÉ que consideravam também um filho e que nós
aprendemos a amar como um irmão mais velho. Infelizmente o perdemos, em 19 de
outubro de 1999, para um problema cardíaco que o acometeu quando tinha apenas
68 anos, não resistindo às complicações advindas da cirurgia a que foi submetido.
Com o trabalho diuturno desenvolvido na farmácia, AFONSINA passou a adquirir
conhecimentos tais que, além de inúmeras vezes tratar com sucesso muitas pessoas
da comunidade, principalmente dos mais carentes e interioranos, frequentemente
acidentados no trabalho, passou a elaborar fórmulas muito eficazes no tratamento de
problemas de pele, tais como eczemas, pano-branco e outros, além de xaropes feitos
 com a utilização de ingredientes naturais da flora da região, muito eficazes no tratamento
 de problemas respiratórios. Cobrar algo pelos serviços, só de quem tinha condições.
 A maioria das vezes, mesmo sem cobrar, era " presenteada " com produtos frutos do
 trabalho daquelas pessoas simples, geralmente peixe, leite de vaca, queijos artesanais,
 pirarucu seco ou salgado, tartaruga, tracajá, " piracuí "* e outros itens que tais.
Seus conhecimentos farmacêuticos se tornaram  tão vastos que lhe foi concedida
a inscrição no Conselho Estadual de Farmácia do Estado do Pará, cujas anuidades
 pagou religiosamente até seu lamentável e precoce desaparecimento...                                                                          

* canarana - gramínea gigante originária da Amazônia, que tem seu habitat nas margens
 dos rios. Seu nome é derivado do Latim " cana ", referente ao talo das gramíneas e do
 Tupi " rana ", que quer dizer " parecido ".

* piracuí - método usado na região para conservação de pescados, que consiste em
 transformá-los em farinha depois de completamente desidratados.

Continua na próxima sexa-feira.
Bom fim de semana a todos.

sexta-feira, 4 de agosto de 2017

- A história da Professora AFONSINA - XII -


                                O rio Cachoeiri hoje. Note-se o rebojo provocado pela 
                                            correnteza brutal, e a erosão da margem...                                                                                           

Para que vocês entendam a gravidade da situação em que se encontrava a criança,
sumida repentinamente da ponte e que tinha, na realidade, caído no rio, é preciso
esclarecer, principalmente aos leitores que não têm a felicidade de conhecer a Amazônia,
que o rio Cachoeiri, às margens do qual fica a fazenda, é uma das duas únicas ligações
diretas entre a calha principal do rio Amazonas e o curso do rio Trombetas, seu afluente
pela margem esquerda. Conclamo-os a um exercício de raciocínio: imaginem o que
significa, em volume de água, a invasão do maior rio do mundo a um riozinho que, àquela
época, tinha mais ou menos uns 100 m de largura! A correnteza é brutal. As margens e o
leito do Cachoeiri são arrancados pelas águas violentas do Amazonas, tornando-o cada dia
mais largo e mais profundo. Vale lembrar que, geologicamente, o Amazonas é um rio novo
e ainda não definiu seus limites; assim, continua escavando seu leito e erodindo suas margens,
transformando-os em sedimentos que, levados pela corrente, vão formar novas ilhas e
bancos de areia, alhures. Por causa deste fenômeno é que, independente da qualificação
profissional e\ou experiência que detenham os comandantes de navios vindos de todo o
mundo para esta região, ao chegarem à foz do Amazonas, nas proximidades de Salinópolis
( Salinas para os íntimos ), o comando desses verdadeiros " monstros ", capazes de carregar
até 80.000 t de carga, é assumido, obrigatoriamente, por um profissional local denominado
" Prático " .Esta providência é tomada porque o leito do rio é, diuturnamente,
modificado: ora desaparecem ilhas e bancos de areia já aparentemente consolidados,
ora surgem, onde pouco antes nada havia, novas ilhas, cuja detecção só pode ser percebida
por quem conhece as " manhas " desse colosso ciclópico. Assim se evitam os encalhes,
muitas vezes irremediáveis, das embarcações. Conheço razoavelmente esta função de
comando, não só porque já tive um barco de pesca baseado em Belém, no qual
empreendi inúmeras viagens pelo rio, mas por ter dois tios - tio TITO ARAGÃO e tio
PAULO ARAGÃO - e dois primos - ALBERTO ARAGÃO e LEONEL ARAGÃO
- que exerciam as funções de comandante e prático da Marinha Mercante na Região
Amazônica, conduzindo seus navios, não raras vezes, até a cidade de Iquitos, no Peru.
Além de tudo isto, tive o privilégio de viajar de carona em um graneleiro carregado
com 50.000 t de bauxita, de Porto Trombetas até Barcarena, graças à amizade do
meu irmão CLENALDO ( de saudosa memória ) com o seu comandante. Este meu irmão, à época, trabalhava na empresa Mineração Rio do Norte, desde a chegada desta mineradora ao Rio Trombetas.
Durante esta viagem, tive oportunidade de conhecer a sala de máquinas ( impressionante ) e a sala de comando e constatei que, não obstante toda a parafernália eletrônica, a presença de um profissional da região - o chamado PRÁTICO -  no seu comando, é imprescindível.
Mas, depois desta necessária explicação, voltemos ao menino que caiu no rio...

       
Continua na próxima sexta-feira.
Bom fim de semana a todos.

sexta-feira, 28 de julho de 2017

- A história da Professora AFONSINA XI


Ponte semelhante à descrita no artigo, construída por mim às margens da lagoa, em Guarajuba - Ba.

E a vida seguia normalmente, quando, no final do ano de 1941, veio a transferência do Dr. Bruzza para outra cidade, desta vez, Catanduva, no interior de São Paulo.
 Logo que chegou à cidade, o Dr. Bruzza, entendendo que sua mulher,  vinda da Capital, precisaria de alguma atividade para quebrar a monotonia própria da vida em uma cidade do interior da Amazônia, tratou de abrir, em seu nome, uma farmácia, não apenas útil para sua mulher mas, principalmente, para a população local, carente de recursos terapêuticos.
E, antes de viajar para o novo destino, acertou a venda do estabelecimento para o amigo - e agora cunhado - FRANCISCO, chamado por todos de CHICO MARTINS. Mais uma atividade exigindo a presença do já sobrecarregado FRANCISCO. AFONSINA, então, passou a dividir os afazeres domésticos com o atendimento na farmácia, uma vez que o casal resolvera deixar provisoriamente, a casa da praça da Matriz, para morar nas dependências amplas do prédio onde funcionava a farmácia recém adquirida.
Logo no início do ano de 1942, a morte levara seu amigo, protetor e patrão, JOSÉ FIGUEIREDO. Como seu antigo sogro havia comprado a pequena fazenda do Cachoeiri em nome de sua filha caçula, LAURINDA, quando ela morreu a propriedade passou a pertencer aos meeiros, seu filho JOSÉ e seu esposo FRANCISCO.
Pretendendo ampliar os negócios da fazenda, FRANCISCO adquiriu algumas cabeças de gado, ampliando o plantel já existente, além de dois cavalos que o vaqueiro, seu Alfredo, que já trabalhava na fazenda, usaria para a labuta com o gado.
O casal, FRANCISCO e AFONSINA, passou a frequentar com mais assiduidade a propriedade, embora as viagens de canoa a remo, demandassem grande esfôrço do Alfredo que vinha do Cachoeiri até a cidade buscar o casal com seu filhinho, além de víveres e insumos. Já grávida pela segunda vez, numa dessas estadas lá na fazenda, aconteceu uma quase tragédia envolvendo o menino, ou seja, EU: É preciso esclarecer que, naquele tempo, nem na cidade havia água encanada, muito menos nas sedes das fazendas ou nas casas dos ribeirinhos. As atividades relacionadas com água, eram desenvolvidas nas margens dos rios. Para tal mister, construíam-se pequenas pontes de madeira projetadas sobre o rio, geralmente na frente das casas ou sede das fazendas. Ali, tomava-se banho de cuia e lavavam-se roupas, louças, panelas e outros utensílios. Em determinada tarde de temperatura elevada, o casal desceu para o banho levando o menino, isto é, - EU - que, a esta altura, deveria ter uns oito/nove meses de idade. Por infeliz coincidência, o casal formado pelo vaqueiro Alfredo e D. Dira, sua mulher - agora transformada em minha babá - tivera a necessidade de visitar um parente, chamado Manoel Gualberto que estava doente e morava rio acima. Os   dois entraram na " montaria " * e lá se foram para o compromisso.
 Ao chegarem à beira do rio, o casal colocou a criança sobre a ponte  e entrou na água para tomar banho. Devem ter se distraído por um momento e, quando AFONSINA olhou para onde haviam deixado o menino, ele já não mais lá se encontrava!...


* montaria - designação genérica de pequenas canoas movidas a remo que os habitantes do Baixo Amazonas usavam nos seus breves deslocamentos, talvez por comparar a pequena embarcação,com os animais de monta, também usados em pequenos deslocamentos, só que em terra.


Continua na próxima sexta-feira...
Bom fim de semana a todos.
       
                                                             

sexta-feira, 21 de julho de 2017

A história da professora AFONSINA - X -






                                                                 - Imagem Internet -


                                                                      - Imagem Internet -


Bem diferente do casamento de LAURINDA e FRANCISCO, a cerimônia do enlace de  AFONSINA e FRANCISCO transcorreu sem muita pompa, não somente pelo fato de a maior parte da família da noiva ser originária da capital, Belém e não se encontrar na cidade, como pela razão totalmente compreensível, evidenciada pelo pouco - para a época - tempo decorrido desde a morte  da
 D. LAURINDA.
 Vale a explicação que, naquele tempo, o luto era demonstrado acintosa e pesarosamente, com o uso de roupas pretas durante os primeiros 6 meses após a morte do cônjuge ou parente mais próximo, pelos homens e durante um ano pelas mulheres. Aos homens, a partir do sexto mês , era " permitido " o uso de uma tarja confeccionada com tecido preto, chamado popularmente de " fumo ", ostentada geralmente no bolso da camisa, à altura do peito esquerdo.
Ainda assim, foi uma festa bonita para os padrões da época.
E logo veio a primeira gravidez! Menina embora, AFONSINA não demonstrou sentir nenhuma anormalidade das que costumam acometer às grávidas, principalmente no início do processo. Enquanto a gravidez transcorria dentro dos padrões, a jovem - agora, repentinamente, transformada em " dona de casa " - passou a dedicar-se totalmente aos encargos inerentes à nova realidade. Mas ela não se limitou a cumprir suas tarefas caseiras, no início de maneira mais ou menos eficiente devido à pouca idade. Como tinha um talento inato para a pintura e muita perícia em trabalhos manuais, aproximou-se, naturalmente, das pessoas da comunidade que tinham dons afins. Assim é que se tornou amiga e aluna de D. Dalila, doceira de " mão cheia " que, além de vizinha, era a irmã mais velha da falecida LAURINDA, primeira mulher de FRANCISCO, agora seu esposo. D DALILA era tão boa na arte de fazer e decorar doces e, principalmente, bolos confeitados, que alguém criou, baseado numa marchinha de carnaval de sucesso na época, que dizia:
 "Ah! quem me dera Dalila, Dalila que eu fosse o Sansão! os teus encantos Dalila, de Sansão a sua perdição...".
 e a paródia criada ficou assim:
 " Ah! quem me dera DALILA, se eu fosse o MARCOS TEIXEIRA, eu te pegava DALILA e te mandava pra " Palmeira..." .
  MARCOS TEIXEIRA - Juiz de Paz da cidade - era esposo da D. DALILA  e " Palmeira "  era uma famosa e prestigiada fábrica de doces e biscoitos localizada em Belém.
 Esta aproximação se deu, também, com D.LAURA DINIZ - chamada carinhosamente de D. LAURINHA - que promovia principalmente espetáculos teatrais, produzindo e encenando, como diretora, peças infantis tais como Branca de Neve e os Sete Anões e outras.
E a gravidez, sem nenhuma intercorrência, chegou ao seu clímax às 6 h da manhã do dia 18 de outubro do ano de 1941. Nascia, neste dia, o primogênito, pelas mãos experientes e competentes de D Lucila, desta vez sob a supervisão profissional do cunhado da parturiente, Dr. BRUZZA. E o recém- nascido, menino saudável e robusto, inundou de alegria aquele lar improvável devido à brutal diferença de idade entre o casal. Nome escolhido, logo se providenciou o batismo do bebê. Chamar-se-ia CLÓVIS e teve como padrinhos o casal JOSÉ DINIZ e sua esposa, D. LAURINHA DINIZ.
 O sacramento foi ministrado pelo Frei PROTÁSIO, pároco local, em frente ao altar mor da igreja de Santo Antonio, uma joia em madeira de lei, arte inigualável, hoje inexistente, vítima da sanha destruidora e ignorante de um padre alemão, chamado  Fortunato Lamprecht, de triste memória.
 Até hoje não entendo porque a comunidade oriximinaense permitiu que um energúmeno,
 ( interpretando de maneira errônea a Encíclica Papal ) saído não sei de que buraco, transformasse a madeira do altar sagrado,  até em lenha para fogueira!...

                                                         
Continua na próxima sexta-feira...
Bom fim de semana a todos.

sexta-feira, 14 de julho de 2017

A história da professora AFONSINA - IX -


                                                        -  Imagem Internet



A família de D. CARMEM era composta por ela - viúva de LEONEL XIMENES DE ARAGÃO - e sete filhos cujos nomes, cronologicamente, passo a declinar: MARIA RITA, TITO LEONEL, ODALÉA CARMEM, JOÃO GUALBERTO, RAIMUNDO VITORIANO, AFONSINA ELINDA e PAULO DE TARSO, todos nascidos em Belém e alguns já casados. A família morava na casa da rua Boaventura da Silva, entre as travessa Nove de Janeiro e Vinte e Dois de Junho ( atual Alcindo Cacela ).
 Ao chegar de volta à Belém de sua viagem à Oriximiná, D. Carmem, sem perda de tempo e por recomendação expressa da MARIA RITA, tratou de comunicar à sua única filha ainda solteira, AFONSINA, de apenas 16 anos, que deveria preparar-se porque iria se casar com um senhor viúvo, cujo nome era FRANCISCO, lá na cidade onde morava sua irmã mais velha!...
Cabe explicar, a esta altura, que as mulheres de então não tinham liberdade para escolher a quem desposar. A maioria das vezes eram os pais que determinavam quando e com quem se casariam. É inimaginável tal procedimento nos dias de hoje, daí a explicação.
Embora ainda por concluir o curso na Escola Normal do Estado do Pará, AFONSINA, obediente como as jovens o eram naquele tempo, sob a orientação da mãe, tomou todas as providências necessárias ao seu deslocamento para o destino que lhe fora comunicado há pouco, para ela totalmente desconhecido. O enxoval, incluindo o vestido de noiva, foi providenciado em Belém onde havia maior facilidade de ser confeccionado. Um ano se passara desde que a primeira esposa de FRANCISCO, D. LAURINDA, havia falecido, quando, lá pela segunda quinzena do mês de novembro de 1940, chegaram, pelo mesmo navio, o " Barão de Cametá ", D. Carmem e sua filha AFONSINA.
 A esta altura, a cidade toda já tomara conhecimento de que aquela moça seria oficialmente declarada noiva do Sr. FRANCISCO, assim que ele cumprisse as formalidades, pedindo sua mão em casamento perante a mãe da jovem e sua irmã mais velha. A notícia da próxima chegada da moça à cidade e da finalidade a que se destinava, fora metodicamente comunicada à sociedade local pela diligente e firme iniciativa da MARIA RITA. E o FRANCISCO, demonstrando irresistível atração pela recém chegada, não tardou a cumprir o ritual do pedido de casamento perante a parte da família da jovem presente na cidade. Desta vez, porém, na mesma ocasião da  cerimônia do pedido de casamento, foi anunciado pelo noivo que o enlace se daria logo no mês de fevereiro do ano seguinte, isto é, 1941. Faltava apenas determinar o dia, que dependeria, naturalmente, do cumprimento dos trâmites legais e da agenda do pároco. Finalmente, passadas as festas de fim de ano, ficou  decidido que a cerimônia nupcial seria realizada no dia 13 de fevereiro. Aliás, o dia 13 começava a marcar  algumas datas importantes da vida da noiva: ela nasceu no dia 13 de janeiro de 1924 e agora casaria no dia 13 de fevereiro de 1941...

                                                                       
Continua na próxima sexta-feira...
Bom fim de semana a todos.
  

sexta-feira, 7 de julho de 2017

A história da professora AFONSINA - VIII -




                                         Praias do rio Trombetas - imagem da Internet -



                                FRANCISCO, ao se casar com a filha de uma das figuras preeminentes da cidade, naturalmente ascendeu a um patamar superior na sociedade local; com isto, suas amizades mais próximas eram, como é natural, com as personalidades mais expressivas da pequena cidade e, entre estas personalidades, figurava uma de quem se tornou bem mais próximo: justamente o médico recém chegado.
 A amizade se solidificava mais e mais, a ponto de o amigo FRANCISCO passar a frequentar, com assiduidade, a casa do médico. Enquanto isto ocorria, lá em Belém, a Sra. CARMEM RODRIGUES DE ARAGÃO, viúva de LEONEL XIMENES DE ARAGÃO, morto com apenas 42 anos de idade e mãe da esposa do Dr. BRUZZA, de nome MARIA RITA ( chamada familiarmente de MANA ou MEIRY, como já referido anteriormente, mulher decidida e com uma  personalidade forte ), sentindo - como é natural - saudade da filha mais velha, resolveu que iria visitá-la, tão logo aparecesse uma oportunidade. Decisão tomada, lá se foi a D. CARMEM em viagem a bordo do " vapor " chamado
" Barão de Cametá ", com destino à terra onde morava sua filha . Quando o mês de agosto de 1940 chegava à sua metade, eis que, sem nenhum aviso ( naquele tempo as comunicações eram terrivelmente difíceis até entre as capitais!!! ), chega à pequena cidade a mamãe saudosa, com a intenção de voltar à Belém pelo mesmo navio, o que demoraria cerca de doze dias, entre sua chegada à Manaus e seu regresso até Oriximiná. Tratou então de aproveitar a companhia da filha e do genro, o máximo de tempo possível.
É necessário, a esta altura da narrativa, passar para os leitores mais jovens, os preceitos e normas, inimagináveis para os dias de hoje, que vigoravam naquela época. Um preceito que tinha a concordância tácita de toda a sociedade, era que, quando dois ou mais homens estivessem conversando, nenhuma mulher ou criança e muito menos serviçal, poderia se aproximar, salvo se fosse expressamente chamado ou chamada. Deveriam passar ao largo!
 Um belo dia, porém, MARIA RITA casualmente ouviu, ao passar pela porta da sala, o FRANCISCO fazendo um comentário em sua conversa com o dr. BRUZZA, no qual se queixava de ter ficado viúvo, com um filho de apenas 5 anos de idade e precisava voltar a se casar. Na cidade porém, todas as moças em idade de casar e que lhe despertavam algum interesse, já eram casadas ou estavam comprometidas. MARIA RITA, atrevida, irrompeu na sala, aproximou-se dos dois e, de maneira inesperada, disse: " Seu CHICO, mamãe voltará  à Belém e vai trazer minha irmã mais nova pra casar com o senhor! ". Estáticos, não só pelo inusitado da declaração mas principalmente pela
 " intromissão absurda " de uma mulher na conversa de dois homens, nada foi dito de pronto por nenhum deles. Apenas fizeram um muxoxo que acabou sendo interpretado por ela como aquiescência. Alguns dias se passaram até que o " Barão de Cametá ", voltando de Manaus, aportou no " trapiche "*, desembarcando viajantes e mercadorias e embarcando passageiros e cargas - principalmente castanha do Pará e juta - e, entre os passageiros, lá se foi D. Carmem de volta à capital paraense cumprir as " determinações " da sua enérgica e resoluta filha...


* Ponte ( no caso, de madeira ) localizada à margem do rio, em frente à cidade, construída na parte mais profunda, que serve para a atracação de navios e outros barcos, à exceção de transatlânticos que carecem de maior calado. Estes, fundeavam no canal existente no meio do rio, lançando suas enormes âncoras, presas a correntes de diâmetro impressionante, para nós, meninos de imaginação fértil, " da grossura da nossa coxa "...
                                                               
Continua na próxima sexta-feira...
Bom fim de semana a todos.

sexta-feira, 30 de junho de 2017

A história da professora AFONSINA - VII -



O autor com o irmão, no dia da sua posse na Academia.


                           Faculdade de Direito onde se formou o homenageado nesta postagem.
                                         - Assim era o Largo da Trindade na década de 1960 -


Antes de começar a narrativa da história da minha mãe, permitam-me apresentar alguns dados
biográficos daquele bebê, meu irmão, a quem aprendi a amar desde a mais tenra idade, único
sobrevivente do relacionamento de FRANCISCO com a saudosa LAURINDA, sua primeira
esposa:

     
                                              J O S É    F I G U E I R E D O    D E    SOUSA

Nascido na cidade de Oriximiná, no dia 01.08.1935;
Cursou o primário no Grupo Escolar Pe. José Nicolino, em Oriximiná;
Cursou o ginásio e científico no Colégio Salesiano Na Sa do Carmo e no Colégio 

Estadual Paes de Carvalho, em Belém;
Formou-se em Direito, em 1960, pela antiga Faculdade de Direito da Universidade do Estado do Pará; ( vide foto ilustrativa ).
Em 24.12.1977, foi agraciado com o Diploma Comemorativo do Primeiro Centenário de Oriximiná, diploma este assinado pelo então Prefeito do Município, Raimundo José Figueiredo de Oliveira; 
Agraciado com a insígnia Ordem do Mérito "Just et Labor ", pelo emérito Tribunal Regional do Trabalho da Oitava Região;
Em 19.12.2002, recebeu o título de " Cidadão de Belém ", conferido pela Câmara de Vereadores da Cidade de Belém;
Em 04.11.2004, recebeu o título de " Personalidade Pará 2004 ", concedido pelo Conselho de Profissionais do Estado do Pará;
Em 17.12.2004, foi agraciado pela Assembléia Legislativa do Estado do Pará, com o diploma e comenda " Ordem do Mérito Cabanagem ";
Eleito para a Academia Paraense de Letras, tomou posse da cadeira número 14, - cujo o primeiro ocupante e fundador foi Enéas Martins - no dia 04.11.2011 ( vide foto ilustrativa );
Já em 17.12.2009, por ocasião do recebimento da medalha " José Veríssimo", como numa premonição, declarou no seu discurso de  agradecimento à  Academia  Paraense  de  Letras: " Um dia, quem sabe, meu torrão natal também revelará ao mundo seus intelectuais! ";
Terminou seu discurso de posse na Academia, dizendo: " Oriximiná, com muito orgulho, a partir de agora, possui um legitimo representante na Academia Paraense de Letras! ".
Obras principais:
Nossa Viagem ao Oriente;
No Caminho de Deus e dos Homens;
Nosso Sonho Escandinavo;
Y.Yamada, uma História de Trabalho e Sucesso;
Poemas da Minha Juventude;
Alem de inúmeros artigos e reportagens publicados no antigo jornal O Liberal e na Folha do Norte.

Da Floresta Amazônica à Savana Africana, publicado em 2017- sua mais recente criação -.

Nesta postagem todos os seus irmãos pelo lado paterno, prestamos, por meu intermédio, as nossas justas e merecidas homenagens ao nosso irmão mais velho. Você é um dos nossos orgulhos e referências!!!



sexta-feira, 23 de junho de 2017

- LUTO... CLENALDO FRANCISCO ARAGÃO DE SOUZA - 11.10.1945 a 22.06.2017 -

                     
                              Meu irmão e eu, naquele papo que " decide o destino do mundo "...



 Arrasado emocionalmente, vejo-me obrigado a interromper a narrativa da história de vida da minha mãe, para falar sobre seu terceiro filho, o meu amado irmão CLENALDO FRANCISCO ARAGÃO DE SOUZA , que acaba de perder a luta travada bravamente contra o câncer, mal terrível que vem desafiando a ciência médica mais avançada e ceifando a vida de muitas pessoas, que, como ele, primaram pela correção e comprometimento com as coisas certas, em sua profícua e feliz passagem por esta vida.
Não quero, porém, falar sobre sua morte e sim dizer da minha admiração, assim como da admiração de todos os que tiveram o privilégio de conhecê-lo. Trata-se de ser humano incrível, capaz de semear o bem querer e a harmonia, em todos os lugares por que passou. Homem trabalhador e constante, passou uma boa parte de sua fecunda vida, prestando seus serviços profissionais e competentes, nas minas de bauxita em sua terra natal, Oriximiná, onde começou exatamente na instalação da empresa,
ficando nela até se aposentar. Foram décadas de dedicação que lhe proporcionaram percorrer o caminho que percorrem todos os profissionais competentes, começando como simples ajudante e alcançando a chefia de diversos departamentos.
E foi na cidade-modelo de Porto Trombetas, sede da subsidiária da Vale do Rio Doce, denominada Mineração Rio do Norte, no Município de Oriximiná, Estado do Pará, que formou sua família e criou seus 5 filhos. Ao seguirem o exemplo do pai, tornaram-se todos, mulheres e homens, seres humanos úteis, produtivos e queridos por todas as pessoas do seu convívio.
Tive o enorme prazer de visitá-lo e aos seus, por diversas vezes lá em Trombetas, sendo sempre recebido com a fidalguia e atenção que suplantavam os limites da gentileza. Lembro-me do orgulho que sentia quando, mesmo cheio de afazeres inerentes ao cargo, me levava em seu veículo de trabalho, para mostrar a grandiosidade das minas e a enormidade e complexidade dos equipamentos empregados na exploração do minério, tecnologia de primeiro mundo, encravada no coração da selva amazônica !



                                        O nosso CLEY cantando em um dos seus aniversários



 Lembro de seu orgulho e entusiasmo, ao me mostrar a estação de tratamento do esgoto da cidade, que devolve ao Rio Trombetas águas mais limpas do que as recolhidas para uso.
Obrigado meu amado irmão e amigo. Segue tranquilo rumo ao cosmos, na certeza que cumpriste magistralmente o papel que a vida te confiou.
Jamais, enquanto viver, deixarei de reverenciar tua imagem que, na minha retina, guarda aquele CLENALDO ativo e cheio de vida que acompanhei, como irmão mais velho, por um breve período, já que demos rumos diferenciados às nossas existências!
Te amo !!!

Aos meus amigos leitores digo:
Até a próxima sexta-feira

sexta-feira, 16 de junho de 2017

A história da professora AFONSINA -VI -



                                                                     Foto Internet


Os primeiros sinais sentidos indicando que o bebê precisava vir à luz, foram verificados ao
amanhecer do dia 01.08.1935. Um misto de euforia e preocupação invadiu a casa. Já haviam
vivenciado, num passado recente, um trauma terrível, daí a preocupação. A euforia, porém,
venceu e,  rezando baixinho, estavam esperando as notícias vindas do quarto por intermédio
da parteira, d. Lucila - por muitos chamada carinhosamente de " mãe Lucila " - cuja experiência
já fora comprovada ao longo de vinte e muitos anos trazendo à luz os nascidos na cidade e até
em alguns lugares do interior. E, finalmente, a notícia: nascera, sem nenhuma intercorrência, um
robusto e belo menino! Ambos, parturiente e recém nascido, estavam muito bem, obrigado!
E o tempo passou assistindo a felicidade novamente reinar naquela família. FRANCISCO
seguia trabalhando muito, como sempre, e agora com outros encargos correspondentes à
administração da fazenda do sogro, localizada à margem direita do rio Cachoeiri, onde havia
um rebanho de bovinos, e que servia mais de recreação para a família do que como geradora
de recursos, já consideráveis, advindos dos castanhais. O preço da castanha do Pará, por
sinal, subira ano a ano, proporcionalmente ao aumento do interesse dos compradores, agora
já exportada para os EE.UU que descobriram no seu consumo inúmeros benefícios à saúde e
 ao paladar, passando a figurar como um dos principais componentes na elaboração de
biscoitos, bombons e doces em geral.
Os cuidados dedicados ao pequeno JOSÉ - sim! este foi o nome escolhido à unanimidade,
 para homenagear o avô - eram tantos e de tal monta que, por alguma razão misteriosa
 que  a natureza esconde e espera até hoje pela decifração por parte de nós humanos,
apesar de todo  o amor existente entre o casal, uma nova gravidez só se verificaria
 quatro anos depois, no ano de 1939.
Esta terceira gravidez, tal qual as outras anteriores, transcorreu sem  nenhum
problema a não ser aqueles já referidos e comuns a todas as grávidas. E chegou
o dia esperado ansiosamente por todos. Os sinais de que o bebê começara a tentar abrir
  caminho em direção ao mundo exterior, tiveram início por volta das dez horas da noite
do dia trinta e um de julho de 1939 mas, ao amanhecer do dia seguinte, apesar
do gigantesco esforço de todos e, principalmente da parturiente, todas as tentativas foram
frustradas. A mãe e a criança ( era uma menina ), acabaram por sucumbir, inclusive pela
ausência de um médico na cidade. A revolta se fez sentir, imediatamente e os familiares,
enquanto providenciavam o múltiplo funeral, instaram veementemente às autoridades,
exigindo gestões urgentes com o objetivo de prover a cidade com a presença de um
profissional graduado de saúde. Tal a força e o peso da família junto às autoridades, que
logo no início do ano de 1940, foi designado um médico para a cidade. E este médico,
que se chamava Dr. DURVAL BRUZZA, chegou à Oriximiná, trazendo consigo sua esposa,
 minha tia mais velha, por parte de mãe, MARIA RITA RODRIGUES DE ARAGÃO que,
com o casamento, passou a chamar-se MARIA RITA DE ARAGÃO BRUZZA
- chamada  carinhosamente pela sua família de  MEIRY ou MANA, naturalmente
por ser a mais velha dos filhos do  casal LEONEL XIMENES DE ARAGÃO e
CARMEN RODRIGUES DE ARAGÃO,  meus avós maternos -.
E aí começa, verdadeiramente, a história da minha saudosa mãe -  AFONSINA ELINDA ARAGÃO DE SOUZA
 - em sua passagem pela cidade de Oriximiná, chamada carinhosamente pelos seus filhos,
de " A Princesa do Trombetas "...

                                                     
Continua na próxima sexta-feira...
Bom final de semana a todos.

sexta-feira, 9 de junho de 2017

A história da Professora AFONSINA - V -



        Meu jovem amigo ARAUAQUE e eu chegando ao antigo
        barracão, construído pelo papai.

         Meu sobrinho CLEY e eu, no interior do barracão.
                     (note-se que já não existe assoalho)

A confirmação da gravidez da LAURINDA, a segunda, trouxe novo ânimo a todos os 
familiares. Como é natural, aumentaram-se os cuidados com a parturiente cobrando-se, até 
dela própria, a observância de regras mais rígidas para o seu dia a dia. Alimentação rica e 
variada, tomada nas horas certas e nada de muito esforço ou longas caminhadas. Claro que 
tais atitudes da família não tinham razão de ser, pois o que ocorreu com a criança que 
morrera, nada tinha a ver com o comportamento, alimentação ou qualquer outra atitude da 
parturiente, como é fácil deduzir.  A criança morrera, como eu próprio teria morrido se tivesse 
nascido uns  10 ou 20 anos antes do meu próprio nascimento, porque a tecnologia que me
mantem vivo até hoje (o marcapasso), não existia e, fatalmente, já estaria morto, vítima de uma 
parada cardíaca durante o sono. A criança morrera, dizia, porque Alexander  Fleming, escocês 
( 06.11.1881 a 11.03.1955 ), apesar de ter casualmente descoberto a penicilina - primeiro 
antibiótico - em 1928, sua produção industrial como fármaco, só começou em 1938 nos 
EE.UU., isto é, quatro anos depois do infausto acontecimento. E a gravidez transcorreria 
sem nenhuma intercorrência, a  não ser pelas sempre presentes náuseas, comuns nos meses 
iniciais... Naquele ano, como que para comemorar antecipadamente a chegada de outro filho 
(ou seria filha ?...), a safra da castanha do Pará foi das mais generosas. Com isto, o trabalho 
de todos foi proporcionalmente maior, exigindo algumas viagens extras para trazer até a 
cidade, no " batelão "*, as castanhas que, por sua enorme quantidade, abarrotavam o barracão 
construído às margens do lago. As atribulações foram tantas, que FRANCISCO decidiu 
que construiria, naquele ano, um outro barracão, desta vez com uma estrutura definitiva e 
com capacidade de armazenamento dobrada. A construção foi de tal maneira caprichada, 
que até hoje permaneceria utilizável, não fora o vandalismo perpetrado por caçadores e 
pescadores que, não tendo a mínima consciência, usam a sua medeira fácil para fazer 
fogueira, ao lá acamparem para passar a noite! Não imaginam o trabalho, o sacrifício e o 
dinheiro que foram feitos e gastos para trazer da cidade os materiais corriqueiros e da 
capital, Belém, as telhas, que até hoje cobrem o barracão. (Estive no local, no ano de 
2002, conforme as fotos que ilustram esta postagem).
 E o ano de 1935 já ia lá pela metade quando, sabendo que o parto estava próximo,
foram providenciados todos os requisitos exigidos para uma feliz " délivrance "...


* BATELÃO - Grande embarcação desprovida de motor, que serve para transportar
 qualquer tipo de carga e que é rebocado ou empurrado por barcos motorizados.

                                                             
Continua a próxima sexta-feira.
Bom fim de semana a todos.

sexta-feira, 2 de junho de 2017

A história da Professora AFONSINA - IV -


Imagem Internet

Os costumes muito rígidos da época, não permitiam nenhum encontro dos jovens noivos a sós.
 " Namorar " e até " Noivar ", tinham um significado que mantinha uma distância cósmica com o que hoje se pensa e acontece. No namoro, o respeito à integridade física e moral da namorada era sempre observado, mesmo porque a moça, recatada e " de família ", não permitia nem a mais inocente intimidade. Pegar na mão da jovem era um acontecimento que levava o namorado a dar pulos de alegria, na primeira oportunidade em que se encontrasse sozinho! Já o noivado era constituído pela permissão que o pai da jovem concedia ao noivo para frequentar sua casa, sentar-se, geralmente num sofá,ocupando um extremo, enquanto a noiva sentava no outro lado e, ainda assim, com a presença de algum adulto da família da pretendida - geralmente a mãe a fazer crochê -.
Por conta desses costumes, os casamentos aconteciam num prazo relativamente curto, considerando-se o dia em que a jovem - com a anuência do pai - aceitara o " pedido de casamento ". É que o noivo, geralmente apaixonado, como é natural, tinha urgência em " consumar o casamento ".
E vieram as núpcias de LAURINDA e FRANCISCO, festejadas com toda a pompa que o pequeno lugarejo podia oferecer. Mataram-se boi e porco. Há quem afirme que um peixe-boi foi servido, transformado que fora no mês anterior, em uma deliciosa " mixira ". ( E olha a água na boca do autor... ).* Uma enorme tartaruga ( olha a água teimosa novamente ), trazida pelo noivo lá do lago do Erepecu - mais precisamente do " tabuleiro "** - completavam o lauto almoço oferecido no dia seguinte pelo pai da noiva, a praticamente todos os habitantes da pequena cidade. É que todos se conheciam e, sem necessidade de convites, os que chegassem eram sempre bem-vindos. As comemorações estenderam-se por quase uma semana ao final da qual os noivos finalmente puderam se concentrar um no outro.
E tudo transcorria tal qual os dois haviam imaginado. A primeira gravidez da jovem esposa aconteceu lá pelo início do ano de 1934. Motivo de muita alegria para todos, especialmente para o casal; o primeiro filho  ( ou seria filha?...), prometia inundar aquele lar com a luz própria de todo bebê, aumentando assim a felicidade que já era incomensurável. A vida, porém, como que para trazer o casal de volta à realidade mundana - já que viviam num paraíso de felicidade - e ajudada pela falta de recurso médicos e farmacêuticos da época, acabou por ceifar a vida da recém nascida ( sim, era uma menina!!! ), tornando-a  vítima, como era muito comum naqueles tempos, do chamado " mal dos sete dias ".
 A superação de tão angustiante golpe exigiu muito amor e dedicação do casal assim como o carinho de todo o restante da família. E, na medida do possível, a alegria voltou timidamente àquele lar, coroando a recuperação emocional dos dois, nas festas de fim de ano, quando já se desconfiava que a jovem esposa estava novamente grávida!...


* MIXIRA- Método usado para conservação de carnes, que consiste em retirar a gordura do animal, fritando a seu toucinho, retirando o torresmo remanescente e fritando a carne a ser conservada na banha resultante, findo o que se coloca toda a carne já frita, juntamente com a banha, dentro de um recipiente de tamanho proporcional à quantidade a ser conservada e depois de esperar tudo esfriar, tampa-se o recipiente para só abri-lo na ocasião em que necessitar usar as porções.

** TABULEIRO - Banco de areia localizado ao largo do Lago do Erepecu, utilizado pelas tartarugas em sua desova anual. Conta-se que durante a desova, é impossível se visualizar a areia, tal a quantidade de tartarugas desovando ao mesmo tempo, em noites sucessivas.


                                                                     
Continua na próxima sexta-feira...
Bom fim de semana a todos.

sexta-feira, 26 de maio de 2017

A história da professora AFONSINA - III -


                                                      - Exemplo de barco puxando canoas -
                                                                         ( foto Internet )

Disposto a não decepcionar o novo amigo e agora patrão, o jovem FRANCISCO atirou-se de corpo e alma aos seus afazeres. Estes compreendiam o acompanhamento " in loco " da colheita da castanha do Pará, feita por muitos e muitos homens sob seu comando, que se embrenhavam na mata todo dia, ao nascer do sol, em busca dos ouriços valiosos e retornavam à tardinha, não importando se era segunda-feira ou domingo. O castanhal era localizado a mais ou menos um dia de viagem desde a cidade até o interior do lago Erepecu. O deslocamento era feito em " motores " que, além de lentos, levavam ao reboque inúmeras canoas, necessárias na busca da castanha em lugares inacessíveis para um trabalhador a pé. Homens e víveres se amontoavam no convés e objetos e ferramentas que não necessitavam de proteção contra a chuva inesperada e constante, ocupavam lugares nas canoas.  Durante a safra era imperioso que os trabalhos não sofressem jamais solução de continuidade, não importando nem pequenos ferimentos em consequência de acidentes, e nem doenças que não obrigassem o trabalhador a ficar totalmente sem condições de se locomover.  Riscos monumentais ameaçavam a todos nessa coleta. De cobras peçonhentas a onças, de bandos de ferozes porcos do mato ou catetos às doenças tropicais, entre as quais se destacava a malária, companheira indesejada mas constante, a prostrar no " fundo de uma rede '' aqueles a quem acometia. E dela, o próprio FRANCISCO também não escapou. Ao contrário, por diversas vezes foi agredido por este mal muitas vezes mortal!!!
Após se inteirar de todos os detalhes das tarefas que lhe foram designadas pelo patrão e amigo, tanto teoricamente, nas conversas entre os dois, bem como conversando com outros " trabalhadores da castanha " mais antigos no ramo, quanto na prática, no trabalho na mata, FRANCISCO começou a ter mais tempo para estabelecer maiores contatos com as pessoas da cidade e, principalmente, com os familiares do sr JOSÉ. Como era de se esperar, ao demonstrar possuir aptidão total para com os seus deveres, ter iniciativas corretas e, especialmente, passar por todos os testes de honestidade feitos sistematicamente pelo patrão, a admiração de todos começou a se verificar e o jovem e simpático empregado passou a ser convidado, vez por outra, para fazer refeições na casa do empregador..
Ao se aproximar mais e mais da família do patrão-anfitrião, ficou conhecendo melhor seus filhos e filhas, em número de seis que, em ordem cronológica eram, DALILA, HILDEBRANDO, ADRIANA, CORINA, LAURINDA e SOTER. E foi na mais nova das filhas, a LAURINDA, em quem o jovem despertou um misto de admiração e bem querer. Tais sentimentos, comungados também por FRANCISCO - embora não devessem demonstrar nada do que sentiam um pelo outro, devido às rígidas regras sociais de então - acabou por aproximá-los, com a permissão tácita e até entusiástica de seu pai,  embora sem demonstração acintosa . E tudo isto acabou por levar os dois jovens a selarem um compromisso solene, primeiro perante a família da moça e depois perante a sociedade local, sendo logo  marcadas as cerimônias nupciais que seriam realizadas em data a ser confirmada, já no ano de 1933...
                                                         
                                                                       
Continua na próxima sexta-feira...
Bom fim de semana a todos.

sexta-feira, 19 de maio de 2017

A história da professora AFONSINA - II -


Castanha do Pará



A empatia existente entre o jovem FRANCISCO e o Sr. JOSÉ CLEMENTINO DE 
FIGUEIREDO, logo deu lugar a uma amizade que, embora se verificando uma brutal
diferença de idade entre os dois, lá pelo quinto ou sexto dia de viagem, levou o Sr. JOSÉ
a dizer ao jovem novo amigo que ele não mais iria para o Estado do  Amazonas.
 Ao contrário, deveria esquecer a borracha e vir trabalhar com ele na cidade  onde morava
 e exercia suas atividades à frente de um extenso " castanhal " de sua propriedade.
A confiança mútua levou o jovem FRANCISCO a aceitar, sem muita delonga, a proposta
de emprego, embora não tivesse nem a mínima ideia do que seria um " castanhal " e muito menos
quais as condições de trabalho que lhe seriam disponibilizadas na tal localidade.
Convite aceito, alguns dias depois, o navio " gaiola " aportava na  cidade onde vivia o Sr. JOSÉ.
Na verdade, nem de " cidade " poderia ser chamada a pequena vila...
 Fundada  em 1877 pelo Padre JOSÉ NICOLINO DE SOUZA, na parte conhecida como
 " terra firme ", na margem esquerda do Rio Trombetas, teve como primeiro nome, conferido
 pelo seu lendário fundador, Uruá-Tapera .
 Pela Lei 1288, de 11.12.1886, foi elevada à categoria de Freguesia de Santo Antonio de
 Uruá,  pelo presidente da Província do Grão-Pará e Desembargador do Maranhão,
Dr. Joaquim da Costa Barradas.
 São imprecisas as informações sobre a vida da Freguesia, no período compreendido entre sua fundação e a data de 09.06.1894, quando o então Governador do Estado, Dr. LAURO SODRÉ, elevou-a à categoria de " Vila ", já com o nome de Oriximiná.
A criação do município, com a mesma denominação, se deu no dia cinco de dezembro do mesmo ano, sendo nomeado como primeiro intendente, o Sr. Pedro Carlos de Oliveira.
Por ocasião da chegada do jovem FRANCISCO, lá pelo início da década de 1930, a cidade era constituída por apenas três ou quatro ruas, que subiam preguiçosamente por ladeiras mais ou menos íngremes e desprovidas de qualquer obra que facilitasse o trânsito de seus habitantes. Uma destas ruas levava a uma praça ampla, no centro da qual fora erguida uma igreja, cuja pedra fundamental
 foi solenemente assentada e benzida, no dia  23.07.1922 - quando se comemorava o primeiro centenário da independência do Brasil - pelo Venerável Vigário da Paróquia de Óbidos, Frei Rogério 
Voger O.F.M.
 O jovem e aventureiro viajante, já demonstrara grande admiração pela paisagem encantadora,
 única para seus olhos nordestinos acostumados às terras áridas, logo por ocasião da chegada do
 " vapor " a foz do Rio Trombetas.
 Este rio, de águas límpidas e transparentes, contrastava de maneira brutal com as águas barrentas
 do Rio Amazonas, deixado prá trás lá pelos lados da cidade de Óbidos.
Completou-se seu encantamento, com a visão da estonteante beleza das praias alvíssimas
à frente da cidade e ele decidiu, naquele momento, que aquele lugar maravilhoso seria
pra sempre sua morada!
                                               
                                                               
Continua na próxima sexta-feira.
Bom fim de semana a todos.

sexta-feira, 12 de maio de 2017

A História da professora AFONSINA - I -



NAVIO "GAIOLA"


Atendendo a alguns pedidos de amigos e parentes, volto a publicar neste espaço,
descrevendo da maneira mais fiel possível, a história da vida da minha mãe,
AFONSINA ELINDA ARAGÃO DE SOUZA, em sua passagem pela cidade
paraense de Oriximiná, localizada à margem esquerda do Rio Trombetas, contribuinte
importante, com suas límpidas águas, para aumentar o volume, já enorme, do maior
 rio do mundo, o Amazonas.
 Para que os leitores entendam tudo o que aconteceu na vida fecunda desta valorosa,
 heroica  e destemida mulher, é imprescindível começar sua história pela a história
do homem  que viria a ser seu esposo, e que, mercê dos mistérios insondáveis do destino,
a arrancou da tranquilidade em que vivia em Belém, sua terra natal, levando-a para ser
 protagonista importante na história da sua própria vida e na vida da cidade que a acolheu.
Nascido na cidade de Bananeiras, estado da Paraíba ( onde estive, em viagem de cerca
 de uma semana  no ano de 2014, juntamente com meus irmãos CLÉO e CLEISY,
a procura de seus parentes ), o Sr. FRANCISCO MARTINS DE SOUZA, então com 23
 anos de idade, a exemplo de muitos e muitos outros jovens nordestinos, inconformado
 com a falta de oportunidade para crescimento material em sua terra, resolveu procurar
 na região amazônica ( então a Meca dos lugares promissores no País, principalmente
 por conta da enorme valorização da borracha ), melhores condições de vida, demonstrando
 com tal iniciativa, desassombro e destemor na busca por seu ideal.
 Chegando à Belém, resolveu que, imediatamente, navegaria para o Estado do Amazonas,
 a bordo de um dos " vapores " que faziam a linha da capital paraense até Manaus,
 lugar onde viviam os donos de seringais, os famosos " barões da borracha ", assim chamados
 porque, afirmam, chegavam a acender charutos caríssimos com notas de contos de reis!
 As viagens, subindo o rio, demoravam até 20 dias para chegar ao destino.
 É que as caldeiras, cujo vapor gerava a força motora para impulsionar os navios,
necessitavam de muita lenha, que era recolhida em diversos pontos do percurso e, quando não
 havia uma quantidade suficiente para alcançar o próximo ponto de coleta, a espera
era inevitável, enquanto se recolhia a lenha complementar.
Com isto era de se esperar que durante a jornada,  os companheiros de viagem,
mantendo um convívio diuturno, passassem a se conhecer melhor, surgindo entre
alguns deles, não raro, um sentimento de simpatia e amizade. Foi exatamente o
que aconteceu entre o jovem FRANCISCO e um outro viajante, bem mais maduro,
que se chamava JOSÉ CLEMENTINO DE FIGUEIREDO...                                        
                                                                       
                                                                   
Continua na próxima sexta-feira.

Bom fds a tds.

sexta-feira, 5 de maio de 2017

- DESCULPEM-ME, A INDIGNAÇÃO FALOU MAIS ALTO!!!

.
                                                                        - pacu -
                                             
 Ao assistir a uma reportagem exibida pela Globo News, lembrei-me do absurdo por mim presenciado no porto de Manaus, numa das minhas inúmeras visitas anuais àquela cidade. Trata-se de um dos mais imorais fatos de que se tem notícia neste País, já repleto de imoralidades: o desperdício vergonhoso de alimentos, enquanto muitos conterrâneos morrem de fome!!!
Todos os anos, no período em que a vazante dos rios amazônicos tem inicio, a captura de peixes nos rios, igarapés e lagos da região, aliada à abundância de espécies como pacu, jaraqui, aracu e outras, é feita em grande quantidade. Ao chegarem à Manaus, diariamente, os pescadores não têm a quem
vender o produto do seu trabalho - o mercado consumidor é restrito e não há locais de
armazenamento - e são jogadas no lixo em média, 10 toneladas de peixes todos os dias!
Enquanto isto ocorre, no Nordeste Brasileiro, multidões passam fome! Há mais ou menos
10 anos, mandei um e-mail para o então Senador pelo Amazonas, Sr. Arthur Virgílio,
descrevendo este verdadeiro crime e sugerindo que instasse a quem de direito, a fazer a seguinte
operação: dispomos, na Base Aérea de Manaus, de nada menos que 8 aviões de carga
modelo C105A-Amazonas, de fabricação espanhola, capazes de carregar até 9,7
toneladas cada um. Por que não utilizá-los para trazer o pescado excedente da região,
acondicionado em containers refrigerados, para quem precisa dele???! Comprar-se-iam
os peixes por um preço simbólico (digamos, a dois reais) e se venderiam  nos diversos
municípios em estado de calamidade pública, aqui no nordeste, a preço subsidiado.
Com isto resolveríamos pelo menos tres problemas cruciais, a saber:

1- ajudaríamos o pescador da região a minimizar os prejuízos, afinal dois reais é melhor
do que nada;

2- mataríamos a fome dos flagelados das regiões carentes, que pagariam com prazer pelo
alimento, a preço subsidiado ( pois, ao contrário do que pensam os governantes de plantão,
o povo, em sua maioria absoluta, não quer nada de graça, como as famigeradas bolsas disso,
bolsas daquilo e cestas básicas, que só fazem humilhar o cidadão, como disse muito bem
o grande Luiz Gonzaga) e

3- diminuiria a terrível poluição decorrente do descarte de  peixes no lixo e principalmente
no Rio Negro, já muito poluído por outros agentes.

E não me venham com desculpas do tipo " os aviões não podem ser usados para esse fim ".
Os aviões são do povo, pois o governo não produz nada, só faz gastar ( e muito mal ) o
dinheiro arrecadado deste mesmo povo que, garanto, autorizaria, em um eventual plebiscito,
seu uso para este fim nobre!!! Que as devidas providências sejam tomadas, urgente, uma
vez que tal desperdício imoral, acontece todos os anos nesta mesmo época..



                                                                 - jaraqui -

Um excelente final de semana a todos. Se possíavel, deixem suas opiniões nos
comentários abaixo do texto.
Abraço e bom final de semana.

Clóvis de Guarajuba
ONG Ande & Limape

sexta-feira, 28 de abril de 2017

- ADVERTÊNCIA AOS LEITORES


Quero aproveitar este momento  para advertir aos meus caros leitores - principalmente
os do sexo masculino - a se cuidarem, fazendo rotineiramente os exames necessários à
manutenção da saúde. O enfrentamento de tais doenças, as angústias que me acometeram
quando no aguardo do resultado de exames mais detalhados, as noites insones ou mal
dormidas por conta das preocupações minhas e das pessoas que me amam, me levam a
advertir a todos, pra que deixem de lado as " frescuras " e/ou pudores do tipo " nada de
dedada! ", pois a vida é muito mais importante do que qualquer outra coisa! A preservação
da vida não admite brincadeiras! Ela é única e muito preciosa; a não ser que você não se
ame a si mesmo!
 Saiba que, quando estava sendo submetido ao procedimento cirúrgico, na
sala ao lado estava sendo submetido ao mesmo procedimento, um homem com apenas 45
anos de idade!!! Muito diferente de mim, àquela altura, com 70 anos! Descobri que o
câncer de próstata acomete a cerca de 98% dos homens que, se não morrerem antes, em
algum momento da vida terão que enfrentar esta terrível moléstia. É estarrecedor, eu sei;
mas temos que enfrentar os fatos como HOMENS que somos! Feitas estas conclamações
e advertências - por quem tem autoridade pra fazê-las -  devo dizer que a partir da próxima
sexta-feira, retornarei às narrativas dos episódios finais desta minha saga, apresentando o
sétimo acidente de que fui vítima e do qual inacreditavelmente sobrevivi, embora tenha a
lamentar a morte dolorosa dos outros dois participantes dele...

Um ótimo final de semana a todos.
Abraço,

Clóvis de Guarajuba
ONG Ande & Limpe