sexta-feira, 17 de novembro de 2017

- MIOLO DE PÃO - VII -





" Como a massa às vezes ficava redonda como uma bola, o pato nunca tinha visto
um miolo de pão tão grande, por isso saiu andando às pressas, um passo lá e outro
cá, e voou em cima da massa de pasteis às bicadas. A vendedora quase desmaiou
com a inesperada e violenta agressão,enquanto o pato saboreava o que podia, ao
mesmo tempo que aproveitou para uma descarregada pelo traseiro..
Enquanto o barraqueiro vizinho tentava ajudar a vendedora, o pato, saciada a
fome, desceu e voltou para o seu lugar primitivo. O bêbado nada percebeu e, pelo
excesso de cerveja, dava cabeçadas no vazio o sono chegando aos poucos.
Embora entre uma cabeçada e outra no vazio a Transladação tenha passado, o
homem ainda via os repetidos fogos de artifício, e ouvia, compassado e agradável,
o badalar dos sinos da Basílica de Nossa Senhora de Nazaré.
Quis chamar a garçonete, mas seu gesto se perdeu naquele aglomerado de
pessoas..  "Pagar a conta e ir pra casa", pensou. Olhou para o pato que já estava
quieto dentro do paneiro. Pensou mais ainda. Não tinha coragem de enfrentar sua
mulher, em casa. Desde setembro de mil novecentos e noventa, com as primeiras
levas dos dez mil invasores, chegara às margens do igarapé do Tucunduba.
Participara da invasão Riacho Doce. Todos diziam que era doce o Tucunduba,
que hoje  é uma sujeira de meter medo.

A mulher era por demais rabugenta, burra e pessimista. Vivia a falar contra o
Tucunduba.- Ele vai transbordar! Quem falou foi a doutora Vera, E, quando
transbordar, vai levar todas as nossas casas...
Ao lado do sanitário ficava a cozinha, e a mulher jogava uma lata amarrada por
uma corda para puxar água. Quando estava para discutir, o bêbado dizia:
- Poluído nada! As crianças andam de canoa e tomam banho.
Dagoberto era o bêbado. Esperava todas as tardes que, pelo menos uma vez
só, a mulher chamasse carinhosamente pelas duas primeiras sílabas do seu
nome, acrescentando um assento agudo ou circunflexo, para ele melhor olhar a
vida.Quando amanhecia e via a mulher olhando o igarapé passar, segurando o
balde para puxar água, costumava  brincar alegremente. Olhava o igarapé e dizia:
- Bom dia, Flor do dia! "

Continua na próxima postagem...

Desejo a todos os meus amigos uma excelente Páscoa.
Abraço,

Clóvis de Guarajuba
ONG Ande & Limpe

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