sexta-feira, 4 de agosto de 2017

- A história da Professora AFONSINA - XII -


                                O rio Cachoeiri hoje. Note-se o rebojo provocado pela 
                                            correnteza brutal, e a erosão da margem...                                                                                           

Para que vocês entendam a gravidade da situação em que se encontrava a criança,
sumida repentinamente da ponte e que tinha, na realidade, caído no rio, é preciso
esclarecer, principalmente aos leitores que não têm a felicidade de conhecer a Amazônia,
que o rio Cachoeiri, às margens do qual fica a fazenda, é uma das duas únicas ligações
diretas entre a calha principal do rio Amazonas e o curso do rio Trombetas, seu afluente
pela margem esquerda. Conclamo-os a um exercício de raciocínio: imaginem o que
significa, em volume de água, a invasão do maior rio do mundo a um riozinho que, àquela
época, tinha mais ou menos uns 100 m de largura! A correnteza é brutal. As margens e o
leito do Cachoeiri são arrancados pelas águas violentas do Amazonas, tornando-o cada dia
mais largo e mais profundo. Vale lembrar que, geologicamente, o Amazonas é um rio novo
e ainda não definiu seus limites; assim, continua escavando seu leito e erodindo suas margens,
transformando-os em sedimentos que, levados pela corrente, vão formar novas ilhas e
bancos de areia, alhures. Por causa deste fenômeno é que, independente da qualificação
profissional e\ou experiência que detenham os comandantes de navios vindos de todo o
mundo para esta região, ao chegarem à foz do Amazonas, nas proximidades de Salinópolis
( Salinas para os íntimos ), o comando desses verdadeiros " monstros ", capazes de carregar
até 80.000 t de carga, é assumido, obrigatoriamente, por um profissional local denominado
" Prático " .Esta providência é tomada porque o leito do rio é, diuturnamente,
modificado: ora desaparecem ilhas e bancos de areia já aparentemente consolidados,
ora surgem, onde pouco antes nada havia, novas ilhas, cuja detecção só pode ser percebida
por quem conhece as " manhas " desse colosso ciclópico. Assim se evitam os encalhes,
muitas vezes irremediáveis, das embarcações. Conheço razoavelmente esta função de
comando, não só porque já tive um barco de pesca baseado em Belém, no qual
empreendi inúmeras viagens pelo rio, mas por ter dois tios - tio TITO ARAGÃO e tio
PAULO ARAGÃO - e dois primos - ALBERTO ARAGÃO e LEONEL ARAGÃO
- que exerciam as funções de comandante e prático da Marinha Mercante na Região
Amazônica, conduzindo seus navios, não raras vezes, até a cidade de Iquitos, no Peru.
Além de tudo isto, tive o privilégio de viajar de carona em um graneleiro carregado
com 50.000 t de bauxita, de Porto Trombetas até Barcarena, graças à amizade do
meu irmão CLENALDO ( de saudosa memória ) com o seu comandante. Este meu irmão, à época, trabalhava na empresa Mineração Rio do Norte, desde a chegada desta mineradora ao Rio Trombetas.
Durante esta viagem, tive oportunidade de conhecer a sala de máquinas ( impressionante ) e a sala de comando e constatei que, não obstante toda a parafernália eletrônica, a presença de um profissional da região - o chamado PRÁTICO -  no seu comando, é imprescindível.
Mas, depois desta necessária explicação, voltemos ao menino que caiu no rio...

       
Continua na próxima sexta-feira.
Bom fim de semana a todos.

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