sexta-feira, 2 de outubro de 2015

GABRIEL, O GALO...




Enquanto viajo, aí vão algumas reprises...

Quando minha primeira mulher se foi (que Deus a tenha em Sua infinita glória), deixou-me,
além da imensa saudade, alguns de seus passatempos preferidos aqui na chácara onde moro.
Mãe, mulher e dona de casa dedicada, tratava com muito carinho os jardins que plantou
com suas próprias mãos, ao longo dos quase  40 anos  em que fomos casados. Tambem
gostava de criar aves, como galinha dangola ( picota, la na minha terra), pato e galinha. Essas
criações, por absoluta falta de jeito, não tive como continuar a implementá-las e, juntamente
com meu caseiro e sua família, fomos comendo seus componentes ao longo de algum tempo.
Ao final, sobrou apenas um pequeno pinto que, por ser tão pequeno, ficou livre e solto no
quintal. Ele crescia quase desapercebido, quando numa bela antemanhã, fui despertado por
um desafinado e esganiçado canto (?), que pretendia ser um "co-co-ro-có ".  Aos poucos, nos
dias que se seguiram, o canto foi se tornando mais estridente e afinado, até que, finalmente, já
se fazia ouvir na vizinhança. Ocorre que, sentindo-se o autêntico "dono do terreiro", cantava a
qualquer hora do dia ou da madrugada, quase sempre vindo fazê-lo bem perto da janela do
meu quarto! Embora com tratamento acústico e, geralmente com o ar condicionado ligado, o
canto invadia estridente minhas madrugadas, interrompendo abrutamente meu sono mais
gostoso. Um dia, resolvi botar um fim a essa "falta de respeito" e mandei o caseiro abater o
galo, que, batizado pela minha atual mulher - SANDRA - com o nome de GABRIEL, deveria
ser, assado de forno, o "pièce de résistance" no almoço do dia seguinte. Notei algo de estranho no olhar do
caseiro, ao receber a determinação. Ainda assim, cumpriu a ordem e, no dia seguinte, depois
de preparado por sua mulher, me foi servido no almoço. Estranhei o fato do GABRIEL vir pra
minha mesa inteiro, pois havia dito que eles poderiam comer a metade. Chamei os dois e, ao
insistir para que levassem parte do galo, disseram que agradeciam muito mas que já haviam
almoçado. Querendo bancar o durão na frente dos dois, cortei um pedaço do GABRIEL, botei
no prato, espetei no garfo... mas não tive coragem de levá-lo à boca!... Naquele momento minha
mente registrou, num relance, cenas de antropofagia vistas alhures, em histórias lidas e vistas em
filmes. Levantei, peguei a bendeja com o galo, andei em silêncio para um local arborizado, mandei
o caseiro (que me seguira em silêncio ao lado da esposa) cavar um buraco na areia e depositei
aqueles despojos. Hoje, pode-se ler na placa de cimento que cobre o túmulo:

"AQUI JAZ O NOSSO QUERIDO GABRIEL."


Excelente final de semana, abraço para todos os amigos e visitantes.

Clóvis de Guarajuba
ONG Ande & Limpe

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