sexta-feira, 25 de agosto de 2017

- A história da Professora AFONSINA - XV -


Eu e meu irmão CLÉO, posando orgulhosamente na frente da Escola
PROFESSORA AFONSINA ARAGÃO, no dia de sua inauguração.




A " Turma da Fome ",
 como é evidente, foi
assim designada porque
 seu funcionamento
abrangia a chamada
" hora do almoço ".
 Tal apelido era um estigma pejorativamente
 repetido pelos alunos que frequentavam as aulas nas
turmas consideradas " normais ",
 isto é, as dos horários
 matutino e vespertino.
É evidente que tal circunstância  gerava grande consternação e constrangimento em todos os alunos e, principalmente, nos professores, destacando-se, por motivos óbvios, na Professora AFONSINA, responsável pela turma.
De tal fato eu não tinha nenhum conhecimento, até que no ano de 2011, quando fui passar a " Festa
de Agosto " lá em Oriximiná - o lindo e famoso Círio Fluvial - em determinada noite, no arraial da Praça  da Matriz, conversando com alguns conhecidos, me foi contada toda a história desta turma intermediária, por alguém que participou da mesma. Contou-me ele - hoje um respeitável e importante membro da sociedade local - que a sua Professora, D. AFONSINA, em determinado dia, chegou ao Grupo trazendo para a sala de aula, com a ajuda do meu irmão DEZIZÉ, algumas latas de leite Ninho que foram colocadas sobre a mesa. Todos ficaram naturalmente curiosos e esperavam ter uma explicação para o ato inusitado da mestra. Ela nada disse, até que chegou a hora do intervalo. Só então explicou aos alunos que resolvera trazer-lhes uma merenda e, incontinente, passou a distribuir com todos. Feita a devida fila, encarregou alguém da turma para proceder à distribuição do alimento, sob sua atenta supervisão. Ou seja, numa época em que sequer se cogitava em merenda escolar, a Professora AFONSINA, sob suas expensas, instituiu algo que certamente evitou a evasão escolar que, embora pequena naquela época, sempre ocorria por necessidades extremas e carências de alguns alunos. Claro que esta narrativa, feita com a mais absoluta isenção, me provocou uma emoção tal, que acabei por perder a voz e chorar... Abracei de maneira efusiva o narrador  e disse-lhe que aquele fato aumentava significativamente em mim, o já imensurável orgulho e admiração que tenho, por ter sido gerado por alguém tão especial!
Lamentavelmente, foi preciso que uma ex-aluna da Professora AFONSINA, a ilustre Professora Doutora HILDA VIANA, assumisse a Secretaria de Educação do Município de Oriximiná, para que houvesse o reconhecimento dos méritos e das iniciativas filantrópicas e pioneiras da Professora AFONSINA, consubstanciado na inauguração de uma escola modelo com o nome da ilustre mestra. Para minha imensa emoção e orgulho, fui destacado, na condição de seu filho mais velho ainda vivo, para representar a família da homenageada, o que fiz na companhia de meu querido irmão CLÉO AFONSO ARAGÃO DE SOUZA, certamente tomado por um orgulho e uma emoção igualmente indescritíveis!
Sou mesmo um privilegiado porque poucas pessoas têm na família DOIS IMORTAIS:
Um irmão, membro da Academia Paraense de Letras - JOSÉ FIGUEIREDO DE SOUZA e
minha mãe, imortalizada no nome de uma escola - AFONSINA ELINDA ARAGÃO DE SOUZA!!!

Em tempo: eu próprio acabo de ser também imortalizado através da publicação de um comentário que fiz, sem nenhuma pretensão, sobre uma das obras - Miolo de Pão - do grande escritor e membro da Academia Paraense de Letras, AGILDO MONTEIRO CAVALCANTE. O generoso escritor e acadêmico, usou meus comentários para compor a contracapa de seu mais novo livro, o recém lançado, " A LUZ MISTERIOSA ".                                                                  

                                                                 
Bom final de semana a todos e
até a próxima sexta.

  

sexta-feira, 18 de agosto de 2017

- A história da Professora AFONSINA - XIV -


                            Neste prédio funcionava o Grupo Escolar Padre José Nicolino.
                                                        - Foto de Edilberto Guerreiro -


Lá por volta do ano de 1950, apesar de já cheia de afazeres, AFONSINA começou a ensinar ( já de volta à casa da praça da Matriz ), às crianças e jovens da redondeza que a procuravam se queixando de dificuldades no aprendizado regular, ministrado no Grupo Escolar Padre José Nicolino, então, o único estabelecimento de ensino da cidade. Como também não cobrava por este serviço, era natural que, ao tomarem conhecimento do fato, as mães de outros alunos passassem a apresentar seus filhos, igualmente com dificuldades de aprendizado, solicitando à Professora AFONSINA permissão para frequentarem às aulas por ela ministradas na sua própria residência. Daí até ser convidada para lecionar no " grupo ", foi um pulo; logo começava a carreira " oficial " da professora que, tão generosamente, transferia conhecimentos para tantas crianças e jovens - o DEZIZÉ, eu e o CLÉBER, inclusive - de maneira espontânea e eficiente.
Assim se iniciou  a nobre tarefa da AFONSINA, Professora, que consiste em repassar seus conhecimentos didáticos e, principalmente de vida em sociedade e em família, para a juventude, futuro desta mesma sociedade.
Transcorreu aproximadamente um ano, até se descobrir que a população da cidade, em idade escolar, aumentara de maneira surpreendente. O que fazer para absorver tal população, se o espaço físico não acompanhou este crescimento, já que não se construíram outros estabelecimentos de ensino? Uma reunião do corpo docente decidiu que, emergencialmente, criar-se-ia um terceiro turno de aulas que, por não haver energia elétrica contínua e eficiente, não poderia acontecer à noite. Logo surgiu a ideia de implementar-se este novo turno no horário de 10,00 às 14,00 h. Decisão tomada, passou-se a procurar a professora que tomaria conta desta nova turma, constituída pelos alunos que superlotavam as salas de aula das séries mais concorridas. Uma reunião foi convocada para discutir e determinar qual das mestras ficaria encarregada de conduzir a nova turma. Foram inquiridas todas as professoras presentes e nenhuma se apresentou voluntariamente para tal mister. Sob as mais variadas alegações, que iam desde à necessidade de afazeres domésticos até a outros compromissos assumidos para aquele horário, uma a uma das presentes declinou de assumir aquela tarefa. Foi quando a Professora AFONSINA, entendendo que nada seria resolvido sem a confirmação de uma delas para executar tal serviço, se apresentou como voluntária e foi imediata e entusiasticamente " aclamada "  pelas presentes.
 Diga-se de passagem, que tarefas domésticas não faltavam para quem, àquela altura, já tinha cinco filhos e o marido para cuidar, além de continuar a prestar serviços à comunidade na área farmacêutica!
 Logo, logo, a tal turma intermediária, passou a ser estigmatizada pelos outros alunos componentes das turmas consideradas " normais ", cujo funcionamento se verificava nos horários matutino e vespertino. O estigma se materializou no  nome conferido pelos colegas à turma intermediária: " Turma da Fome ". Tal cognome originou uma atitude inusitada da Professora AFONSINA que, por seu significado, estará em destaque na próxima e penúltima postagem...

                                                                   

Até a próxima sexta-feira.
Bom fim de semana a todos.

sexta-feira, 11 de agosto de 2017

- A história da Professora AFONSINA - XIII -


 
            Meu Pai, CHICO MARTINS, na farmácia de sua propriedade onde
             minha mãe AFONSINA o ajudou, lá trabalhando por muitos anos.
         ( desculpem pela qualidade da foto; é a única que tenho daquela época ).



Como já dito, foi minha mãe que descobriu, horrorizada, que já não mais me encontrava sobre
a ponte. Gritou a plenos pulmões, chamando a atenção do meu pai que, incontinente, subiu
na ponte e, sem ter a mínima noção de para que lado eu havia caído, se jogou às cegas e,
para minha felicidade, me encontrou preso de encontro ao caule de algumas canaranas*,
vegetal muito comum naquelas plagas. Paradoxalmente, foi a correnteza violenta do rio que
me salvou: é que sob sua pressão, fiquei preso de encontro a vegetação. Foi por puro
acaso e sorte que meu pai me encontrou, pois as águas do Cachoeiri são de tal modo
carregadas de matéria em suspensão, que é absolutamente impossível enxergar alguma
coisa quando nelas mergulhamos. Fui resgatado aparentemente morto. No desespero que
se seguiu ao resgate, fui sacudido violenta e sucessivamente por meu pai e minha mãe,
até que, após alguns minutos, voltei a respirar, para alivio e felicidade dos dois e
principalmente para minha felicidade...Nunca mais descuidaram de mim e D. Dira foi
advertida para não me perder de vista jamais!
A segunda gravidez não teve sucesso. Nascido prematuro, aquele que se chamaria  
CLODOALDO, não conseguiu sobreviver. Assim, o segundo filho seria o CLÉBER,
nascido em 11 de março de 1943. Infelizmente já o perdemos, num desastre de veículo
ocorrido em 09 de abril de 2006, mercê do trânsito louco e inconsequente dos nossos
dias. Aproveito, então, esta passagem da narrativa, para declinar, em ordem cronológica,
um por um, todos os filhos da Professora AFONSINA; não perca as contas: CLÓVIS
( o autor ), nascido em 18.10.1941; CLÉBER, nascido em 11.03.1943 ( já falecido );
 em 11 de outubro de 1945, nasceu o CLENALDO FRANCISCO ( já falecido );; em 18 de
dezembro de 1948, nasceu o CARLOS LEONEL; em 14 de janeiro de 1954, nascia o  
CLÉO AFONSO; em 02 de março de 1955, finalmente nascia a tão esperada primeira
filha, CLEMENS MARIA; e aí só viriam mais duas filhas: a CLEIDE MARIA, nascida
em 16 de novembro de 1956 e a CLEISY RITA, a caçula, nascida em 24 de abril de
1959.
 É necessário dizer que, além dos filhos e filhas já citados, a Professora  
AFONSINA e o CHICO MARTINS, seu esposo, acolheram, prazerosamente no seio
da família, ainda criança, o DEZIZÉ que consideravam também um filho e que nós
aprendemos a amar como um irmão mais velho. Infelizmente o perdemos, em 19 de
outubro de 1999, para um problema cardíaco que o acometeu quando tinha apenas
68 anos, não resistindo às complicações advindas da cirurgia a que foi submetido.
Com o trabalho diuturno desenvolvido na farmácia, AFONSINA passou a adquirir
conhecimentos tais que, além de inúmeras vezes tratar com sucesso muitas pessoas
da comunidade, principalmente dos mais carentes e interioranos, frequentemente
acidentados no trabalho, passou a elaborar fórmulas muito eficazes no tratamento de
problemas de pele, tais como eczemas, pano-branco e outros, além de xaropes feitos
 com a utilização de ingredientes naturais da flora da região, muito eficazes no tratamento
 de problemas respiratórios. Cobrar algo pelos serviços, só de quem tinha condições.
 A maioria das vezes, mesmo sem cobrar, era " presenteada " com produtos frutos do
 trabalho daquelas pessoas simples, geralmente peixe, leite de vaca, queijos artesanais,
 pirarucu seco ou salgado, tartaruga, tracajá, " piracuí "* e outros itens que tais.
Seus conhecimentos farmacêuticos se tornaram  tão vastos que lhe foi concedida
a inscrição no Conselho Estadual de Farmácia do Estado do Pará, cujas anuidades
 pagou religiosamente até seu lamentável e precoce desaparecimento...                                                                          

* canarana - gramínea gigante originária da Amazônia, que tem seu habitat nas margens
 dos rios. Seu nome é derivado do Latim " cana ", referente ao talo das gramíneas e do
 Tupi " rana ", que quer dizer " parecido ".

* piracuí - método usado na região para conservação de pescados, que consiste em
 transformá-los em farinha depois de completamente desidratados.

Continua na próxima sexa-feira.
Bom fim de semana a todos.

sexta-feira, 4 de agosto de 2017

- A história da Professora AFONSINA - XII -


                                O rio Cachoeiri hoje. Note-se o rebojo provocado pela 
                                            correnteza brutal, e a erosão da margem...                                                                                           

Para que vocês entendam a gravidade da situação em que se encontrava a criança,
sumida repentinamente da ponte e que tinha, na realidade, caído no rio, é preciso
esclarecer, principalmente aos leitores que não têm a felicidade de conhecer a Amazônia,
que o rio Cachoeiri, às margens do qual fica a fazenda, é uma das duas únicas ligações
diretas entre a calha principal do rio Amazonas e o curso do rio Trombetas, seu afluente
pela margem esquerda. Conclamo-os a um exercício de raciocínio: imaginem o que
significa, em volume de água, a invasão do maior rio do mundo a um riozinho que, àquela
época, tinha mais ou menos uns 100 m de largura! A correnteza é brutal. As margens e o
leito do Cachoeiri são arrancados pelas águas violentas do Amazonas, tornando-o cada dia
mais largo e mais profundo. Vale lembrar que, geologicamente, o Amazonas é um rio novo
e ainda não definiu seus limites; assim, continua escavando seu leito e erodindo suas margens,
transformando-os em sedimentos que, levados pela corrente, vão formar novas ilhas e
bancos de areia, alhures. Por causa deste fenômeno é que, independente da qualificação
profissional e\ou experiência que detenham os comandantes de navios vindos de todo o
mundo para esta região, ao chegarem à foz do Amazonas, nas proximidades de Salinópolis
( Salinas para os íntimos ), o comando desses verdadeiros " monstros ", capazes de carregar
até 80.000 t de carga, é assumido, obrigatoriamente, por um profissional local denominado
" Prático " .Esta providência é tomada porque o leito do rio é, diuturnamente,
modificado: ora desaparecem ilhas e bancos de areia já aparentemente consolidados,
ora surgem, onde pouco antes nada havia, novas ilhas, cuja detecção só pode ser percebida
por quem conhece as " manhas " desse colosso ciclópico. Assim se evitam os encalhes,
muitas vezes irremediáveis, das embarcações. Conheço razoavelmente esta função de
comando, não só porque já tive um barco de pesca baseado em Belém, no qual
empreendi inúmeras viagens pelo rio, mas por ter dois tios - tio TITO ARAGÃO e tio
PAULO ARAGÃO - e dois primos - ALBERTO ARAGÃO e LEONEL ARAGÃO
- que exerciam as funções de comandante e prático da Marinha Mercante na Região
Amazônica, conduzindo seus navios, não raras vezes, até a cidade de Iquitos, no Peru.
Além de tudo isto, tive o privilégio de viajar de carona em um graneleiro carregado
com 50.000 t de bauxita, de Porto Trombetas até Barcarena, graças à amizade do
meu irmão CLENALDO ( de saudosa memória ) com o seu comandante. Este meu irmão, à época, trabalhava na empresa Mineração Rio do Norte, desde a chegada desta mineradora ao Rio Trombetas.
Durante esta viagem, tive oportunidade de conhecer a sala de máquinas ( impressionante ) e a sala de comando e constatei que, não obstante toda a parafernália eletrônica, a presença de um profissional da região - o chamado PRÁTICO -  no seu comando, é imprescindível.
Mas, depois desta necessária explicação, voltemos ao menino que caiu no rio...

       
Continua na próxima sexta-feira.
Bom fim de semana a todos.