" Depois de navegar quanto bem quis, tendo os pés como *palhetas,
Miolo de Pão procurou
o barraco do bêbado, mas não o localizou entre tantos barracos da invasão do
Riacho Doce.
Miolo de Pão se acordou de madrugadinha pelo barulho que sacudia a cidade. Era como se
a cidade toda estivesse caminhando de pés descalços. Vozes se multiplicavam a todo instante.
Brinquedos de miriti passavam suspensos em enormes cruzetas. Pessoas vestidas de camisolões
brancos passavam apressadas para o centro urbano. O que estava acontecendo?
O pato procurou explicações nas águas do
Tucunduba. Quando lá chegou, já estavam cheias
de pessoas, umas tomando banho com baldes, outras nadando no meio das águas.
Miolo de Pão compreendeu que já estava bastante atrasado em sua programação.
Antes tentou entrar no primeiro barraco que encontrou. Colocou o bico dentro da casa
procurando sentir os cheiros que vinham da cozinha. Como os moradores eram tão pobres que
não tinham dinheiro para comprar pão, de lá não chegava nenhum cheiro de miolo.
E o pato foi gingando à procura de outras portas.
Na terceira, de lá pra cá, de cuja cozinha não vinha cheiro de nenhuma espécie, alguém
chamou o animal, carinhosamente, talvez pensando no almoço do dia.
Miolo de Pão tratou de
andar ligeiro e levantou voo à procura das águas do Tucunduva.
Enquanto se ouvia, ao longe, o espocar dos fogos de artifício, saiu um pequeno batalhão de
menores, dos duzentos mil que habitam
Belém em absoluta miséria, à procura de completar
a "meia comida e meia escola".
Rita avistou da porta da sua casa o
João Felício, que ia passando de pés descalços para
acompanhar o
Círio.
- Bom dia, seu
João!
- Bom dia, Dona
Rita.
- Não vai acompanhar o
Círio? -
João quis saber.
- Vou. Vamos eu e o
Dagoberto.
- O senhor ainda trabalha no barco "
Rodrigues Alves"? - perguntou
Rita.
- Ainda, dona
Rita.
- Ele continua fazendo viagem pra
Cametá?
- Continua.
- Aconteceu alguma coisa? - perguntou
João Felício.
- O
Dagoberto, ontem à noite, trouxe um pato grande...mas eu já tinha comprado um para
o
Círio. Vai acabar se perdendo no
Tucunduba. Fiquei pensando: será que o senhor não
levava pra vender no barco?
- Levo, sim. Em
Cametá, tem um bom criador de patos, talvez ele compre pra revender.
Pergunta
Rita:
- Como é o nome dele?
-
Edgar. Vou vender pra ele.
- Eu lhe dou uma comissãozinha. E se virando para dentro de casa:
- Vai pegar o animal,
Dagoberto!
Dagoberto desceu da casa, com as mãos cheias de miolo de pão, para atrair o pato ".
*
palhetas - tem o significado de "
hélices ", sentido muito comum no linguajar da região.
Um ótimo final de semana a todos. Obrigado pelas visita.
Abraço,
Clóvis de Guarajuba
ONG Ande & Limpe