sexta-feira, 27 de outubro de 2017

- MIOLO DE PÃO - IV -



" Quase em frente ao Colégio do
Carmo, o peso do paneiro dizia
que era um patarrão. E começou
a pensar: " Não preciso de tanta
carne de pato em casa, o certo
seria a metade do animal, já que
é muito grande. Poderia vendê-lo
e, com o dinheiro, compraria no
supermercado o tanto de pato
que preciso ". E foi andando com
seus pensamentos. A cidade
estava em sua festa maior,
sentia-se nas feições das pessoas.
Os táxis chegavam e saiam lotados.
Teve um último pensamento:
" Depois, não fica bem, eu fardado
carregando um pato pelas ruas da
cidade "... Um homem bastante
bebido tentava retirar uma cédula
de um pacote de notas.



- Quer vender o pato?
- Sim - disse o guarda.
Ajustaram o preço, e o homem da lei saiu andando com a consciência serena
e o dinheiro no bolso.
O bêbado pegou o paneiro do pato e falou alto:
- A mulher é que vai gostar! Vamos lá, seu imbecil.
E saiu andando entre os romeiros com alguma dificuldade.
Quando pisou na calçada da igreja da Sé, o sol já ia muito alto e o calor
respeitável. Uma suave música fez com que olhasse para dentro da igreja.
De onde vinha som tão bonito? Não soube identificar. Olhou um pouco mais
para dentro, e ficou parado por alguns instantes.
Uma paz suave dominou o bêbado. Ele não sabia que eram os dedos do
padre Cláudio Barradas, fazendo o instrumento soltar os sons musicais de
Mozart, acompanhado da voz do pastor.. E Mozart era tão celestial e suave,
que o bebaça foi se encostando na parede da centenária igreja, lembrando-se
de sua mãe nos Círios passados, quando acompanhava a procissão levado
pela mão materna.. Ou a música ou o calor daquelas horas, ou as lembranças
da véspera do Círio de Nossa Senhora de Nazaré, foram amolecendo o
homem, que colocou o pato ao lado e foi se arriando na calçada.

O pato sentiu que alguma coisa estava acontecendo, não só pela suave e bela
música, como porque o mundo deixou de balançar quando o paneiro foi colocado
no chão morno. Por isso tratou de alargar a passagem das talas da boca do
paneiro. E tantas fez, e empurrou tanto, que conseguiu primeiro passar a cabeça,
e, só depois, conseguiu passar o corpo, sacudindo-se todo, ao sonhar com
água corrente. Ficou do lado do tonto e do paneiro, amedrontado com aquele
mundo desconhecido ao ouvir os passos das pessoas e vendo o velho casario
da igreja de Santo Alexandre, bem como a entrada do forte do Castelo ".

Continua na próxima postagem...

Um grande abraço a todos e obrigado pela visita. Bom final de semana.

Clóvis de Guarajuba
ONG Ande & Limpe

sexta-feira, 20 de outubro de 2017

- MIOLO DE PÃO - III -


" Quando Neuzita chegou do colégio foi correndo ao quintal, mas não encontrou o
Miolo de Pão. Inúteis ficaram as migalhas em suas mãos sujas de tinta de caneta.
O terreiro pareceu vazio.
- Pato é pra panela.
O pai foi sucinto demais.
Procurou atingir o cais de Cametá, correndo sem parar, porque soubera quem
comprou o Miolo de Pão




" Ao avistar o cais, avistou também o barco " Rodrigues Alves ", já fazendo a
curva, no meio do rio, à procura da cidade de Belém. Nunca soube se o seu
coração queria parar ou pular de dentro do peito. Sentou-se na calçada e ficou
a olhar a embarcação, navegando a toda força, cheia de gente, a dizer adeus
aos que ficavam. Ao desembarcar no Porto do Sal, além da pasta de serviço,
o vendedor-pracista tinha diversas e variadas amostras de tecidos e de plásticos
para acomodar na saída do barco. Tropeçando entre os romeiros com tantos
pacotes, descuidou-se do Miolo de Pão, que ficou bastante atrás. Ao voltar-se
para apanhar o pato, ele não estava mais ali. Alguém o levara.. Quiz abrir a boca
para gritar, mas como pisaram em alguns de seus caixotes de amostras, o cometa
resolveu continuar a descida, quase espremido, amargando a derrota.
O ladrão já ia muito longe, levando o pato dentro do paneiro, tal qual viera da
casa de Edgar. Não satisfeito pela proeza, logo adiante subtraiu uma carteira de
outro passageiro, e mais depressa andou. Mas um guarda o flagrou, no segundo
roubo.
- Alto lá, bandido!
- Não fiz nada - disse o ladrão, como sempre dizem todos os ladrões.
- Eu ví você bater a carteira do homem.
Estava preso, sentiu o ladrão. Amoleceu.
- Estava com fome, seu guarda...
O guarda tinha cara de mau. Ouvia tudo parado. As pessoas continuavam a
passar, porém não prestavam atenção ao fato. O guarda lembrou-se de que era
véspera do Círio, e não tinha deixado em casa o pato para o tucupi.
- Vamos dividir, amigo, eu fico com a carteira e dou o pato - propôs o ladrão.
O guarda olhou para um lado e para o outro, como não tivesse ninguém
olhando, aceitou.
- Tudo bem, mas desapareça da minha área!
E, ao assim dizer, segurou o paneiro* com o pato. ".


* Paneiro: cesto feito de fibra vegetal, muito comum para embalagem de quase
tudo, na região.



Um ótimo finl de semana a todos.
Até a próxima sexta-feira. Abraço,

Clóvis de Guarajuba
ONG Ande & Limpe

sexta-feira, 13 de outubro de 2017

MIOLO DE PÃO - II -





Depois de várias considerações, certo dia, ao brincar com as formigas
que procuravam seguir caminho impedidas pela menina, ela pensou:
- É.
E gritou:
- Miolo de Pão!
Como Miolo de Pão já tinha surrado duas galinhas, diante da crista do
galo, que ficou mais vermelha ainda; pisado na porca deitada, que grunhiu
simplesmente, empurrado um peru, que só fez glu-glu, foi correndo buscar
o que mais gostava na vida. A partir daí, passou a atender realmente por
"Miolo de Pão". Quando o pato era muito pequeno, Neuzita apanhara uma
bacia grande de alumínio amassada e despejara água até as bordas.
Colocara o valente pato dentro, e ficara muito impressionada porque ele
nadava tão bem.  E pensara: "Calcule se ele tivesse professor de natação!"
Hóspede da pensão de dona Liberata, o vendedor pracista perguntou onde
compraria um pato grande e gordo para levar para casa, porque no dia
seguinte era véspera do Círio de Nossa Senhora de Nazaré. Como
passar um Círio sem comer pato no tucupi? Panelões e panelões de tucupi
iam ferver na cidade, com jambu e camarão e o imperdível pato.
Solícita e amiga do bem servir a seus hóspedes, dona Liberata indicou a
casa do Edgar, onde tinham os melhores patos da cidade de Cametá.
Depois de discutir o preço, Edgar levou o vendedor até o quintal e mostrou
as suas criações.
- Aquele ali ! - apontou - Que pato bonito e grande !
- Menos ele - disse Edgar.
- Por que? Vai comer você mesmo?
- Não. É cria da casa.
- Dobro o preço!
Edgar pensou mais de uma vez, fez contas nos dedos e, por fim, disse:
- Não posso vender.
- Além de dobrar o preço, ainda dou o dinheiro da branquinha por fora.
- Vou ouvir minha mulher.
O que se passou lá dentro ninguém soube além dos dois. Longa conversa,
a princípio baixa. O vendedor- pracista só ouviu a última frase da Maria
das Dores para Edgar:
- Você decide ".

Continua na próxima postagem...

Um abraço com desejo de que tenham todos excelente final de semana.

Clóvis de Guarajuba
ONG Ande & Limpe

sexta-feira, 6 de outubro de 2017

- MIOLO DE PÃO - I -


                                                  Parte da capa da obra


Nasceu amarelo como ouro, e melhor sorte não teve, segundo alguns
conhecedores, porque a mãe não fez a gritaria que a galinha faz quando,
ao expelir o ovo, anuncia o acontecimento como se fosse a maior coisa
da vida. Não veio só a este mundo. Com ele vieram seis outros irmãos
que, ao crescerem, tomaram destinos ignorados.
Irmãos de raça tinha muitos pelo quintal, misturados entre as outras criações
do Edgar, pai da Neuzita e marido da Maria das Dores.
Maior encanto para Neuzita não havia senão aquele minúsculo ser vivo, de
irresistível atração pela água. Acompanhou o crescimento da criação, desde
os tempos em que o colocava nas mãos, com cuidado pra não cair das alturas,
até atingir quatro quilos e meio, quando já se transformara naquilo que
Neuzita chamava:
- Terror do terreiro, meu valente pato.
Desde quando era amarelo como ouro, que Neuzita procurava ensinar artes
ao pato. Enrolava nas mãos miolo de pão e chamava o pato, que vinha dócil,
amigo e lépido. Com o pequeno bico retirava a comida da mão da menina.
Neuzita abria a cancela do quintal e gritava:
- É miolo de pão!
Estivesse onde estivesse, o pato largava tudo o que fazia, e vinha rápido
buscar o que mais amava na vida: miolo de pão.
Quando era muito pequeno, Neuzita deixava primeiro o pato cheirar a massa
do trigo, só depois colocava a migalha na palma da mão para ele comer.
Assim, pensava Neuzita, ensinava-o a conhecer o pão.
Como o tratava com muita atenção, Edgar dissera que o bicho ia crescer
molenga demais, alvo de qualquer gavião que descesse das alturas, com sua
visão de cem metros de distância.
Para evitar tal comportamento futuro, Neuzita usou de muitos truques e
artimanhas. Uma delas foi despertar a atenção das outras criações, inclusive
do galo brigão, e jogar entre eles sua comida preferida. Levantavam poeira
do chão na disputa. Por tudo isso, o pai, ao ouvir a menina gritar "Terror do
terreiro, meu valente pato", aconselhou:
- Se fosse você, chamava o seu amigo de Miolo de Pão ".

Continua na próxima postagem...

Desejo um excelente final de semana aos meus amigos e visitantes.
Até a próxima sexta-feira.

sexta-feira, 29 de setembro de 2017

- MIOLO DE PÃO - introdução -




 
Sou um leitor compulsivo daqueles
que, em viagem e não tendo levado
nenhum livro na bagagem, ficam com
as diversões prejudicadas até conseguirem
algo para ler. Há ocasiões em que até uma
revista ou jornal bem antigos resolvem
a questão. Na diversidade de assuntos
abordados nos livros em geral,
destacam-se de um lado aqueles que
tratam de temas infantis - embora agradem
também a adolescentes e adultos -, a
exemplo dos imortalizados pelo gênio
de Walt Disney. Do outro lado
há os temas eminentemente adultos a
exemplo da trilogia de grande sucesso
atualmente - Cinquenta Tons de Cinza,
Cinquenta Tons Mais Escuros e
Cinquenta Tons de Liberdade, de
E.L.James -.Pairando no " limbo "
compreendido entre estes dois temas,
existe uma série de obras encantadoras,
entre as quais destacam-se, a meu juízo,
O Velho e o Mar, de Ernest Hemingway,
O pequeno Príncipe, de Antoine de
Saint Exupery e algumas outras, às
quais acrescento, sem nenhuma
sombra de dúvida, a obra de autoria
de Agildo Monteiro, Miolo de Pão.
Como faço todo ano, estava em Belém
para a festa do Círio de Nazaré, no
ano passado. Aos domingos, na Praça
da República, há uma feira de
artesanato muito concorrida, onde
se vende de tudo. Como é natural, há
algumas bancas que oferecem aos
transeuntes livros usados, numa espécie
de sebo a céu aberto.



Enquanto minhas acompanhantes circulavam a procura
de algo interessante, fiquei - como faço sempre -, pesquisando títulos e lendo
as " orelhas ", o que me proporciona momentos de puro prazer. Foi assim que
descobri uma verdadeira joia. Fiquei tão entusiasmado com a singeleza do
texto e com o tema abordado, que resolvi publicar sua íntegra neste meu blog,
contando para isto com a autorização entusiástica do seu autor, que conseguiu  
nesta obra, com rara felicidade, retratar a alma do povo paraense no
ambiente festivo e emocionante da maior festa do paraense: o Círio de Nossa
Senhora de Nazaré. Trata-se de Agildo Monteiro Cavalcante, advogado,
sócio fundador da Associação Paraense de Escritores, membro do Sindicato
dos Escritores - Rio de Janeiro - e da União Brasileira de Escritores - São
Paulo, além de membro da Academia Paraense de Letras onde ocupa a
cadeira 18. É autor de inúmeras obras tais como, A Promessa, A Verde Rã,
Um Animal Muito Estranho, A Bordo, Os Ratos D'água; nas antologias de
Contos Paraenses, está presente com A Fuga ( aborda a violência no sul do
Pará ) e Natanael Martim de Maristela ( sobre a poluição consequente do uso
indevido do mercúrio nos garimpos ). Consta do programa oficial para o
vestibular e para o segundo grau, do estado do Amazonas, citado como
prosador contemporâneo ".  A Enciclopédia da Literatura Brasileira
( publicação do Ministério da Educação - Rio de Janeiro, sob a direção dos
críticos Afrânio Coutinho e J. Galante de Sousa ), além de catalogar as obras
do escritor, diz que o mesmo continua " a sua pesquisa estética e social na
vida ribeirinha numa linguagem ao nível das expressões regionais ".  
Resta-me agradecer penhorado a oportunidade e a honra de poder publicá-lo
neste BLOG.
Muito Obrigado, Agildo.

Continua  na próxima postagem...

Um ótimo final de semana a todos,
Até a próxima sexta. Abraço,

Clóvis de Guarajuba
ONG Ande & Limpe

sexta-feira, 22 de setembro de 2017

ORGIA: SEM SABER O QUE É, NÃO PARTICIPE!...


                                                                    Imagem Internet


No dia 11 de agosto de 2003, segundo inquerito policial, o Oliveira embriagou seu amigo Silva
e em seguida levou ele e sua mulher, Ednair Alves de Assis, a uma construção localizada no
parque Las Vegas (o nome tem tudo a ver...), em Bela vista de Goias. Lá, obrigou o amigo e
a mulher a se despirem e praticarem sexo, dizendo que queria fazer uma " suruba ". Logo a seguir,
Oliveira teria aproveitado para fazer sexo anal no amigo. O Silva, ao passar o porre, foi prestar
queixa na delegacia que abriu o competente inquérito e remeteu para a Justiça. Abaixo vou
reproduzir ad literum, o acórdão do Tribunal de Justiça de Goiás, publicado no dia 6 de julho
de 2004. Achei um barato!

"Apelação criminal. Atentado violento ao pudor. Sexo grupal. Absolvição. Ausencia
de dolo.

1- A pratica de sexo grupal é ato que agride a moral e os costumes minimamente civilizados.

2- Se o individuo, de forma voluntária e espontânea, participa de orgia promovida por amigos
seus, não pode ao final do contubernio dizer-se vítima de atentado violento ao pudor.

3- Quem procura satisfazer a volupia sua ou de outrem, aderindo ao desregramento de um
bacanal, submete-se conscientemente a desempenhar o papel de sujeito ativo ou passivo, tal é
a inexigencia de moralidade e recto neste tipo de confraternização.

4- Diante de um ato induvidosamente imoral, mas que não configura o crime noticiado na denúncia,
não pode dizer-se vítima de atentado violento ao pudor aquele que no final da orgia viu-se alvo
passivo do ato sexual.

5- Esse tipo de conchavo concupiscente, em razão de sua previsibilidade e consentimento prévio,
afasta as figuras do dolo e da coação.

6- Absolvição mantida. Apelação ministerial improvida."

O relator foi o Desembargador Paulo Teles.

Como reproduzi fielmente, me abstive de reparar a concordância da " bacanal " que é feminino.


Abraço e bom final de semana.
Até sexta-feira.


sexta-feira, 15 de setembro de 2017

- DIÁRIO DE UMA CRIANÇA ASSASSINADA...



- Dia 05 de outubro - Hoje teve início a minha vida. Papai e mamãe ainda não sabem. Sou menor que a cabeça de um alfinete, mas já sei: vou ter os olhos iguais aos do papai e meus cabelos serão castanhos e ondulados, iguais aos da mamãe.

- Dia 19 de outubro - Hoje começa a abertura da minha boquinha. Que bom! Dentro de um ano vou poder sorrir, quando meus pais se inclinarem sobre meu bercinho! Minha primeira palavra será " mamã "...

- Dia 23 de outubro - Ih! Meu coração começou a bater!...e continuará a exercer sua função, sem parar jamais, sem descanso, até o fim da minha vida; um grande milagre da natureza!

- Dia 02 de novembro - Meus braços e minhas perninhas começam a crescer e vão continuar crescendo, até ficarem perfeitos.

- Dia 12 de novembro - Oh! Agora, nas minhas mãozinhas, as unhas estão despontando... que beleza!!!

- Dia 29 de novembro - Hoje, pela primeira vez, a mamãe percebeu, pelas batidas do seu coração, que me traz no seu ventre. Imaginem a imensa alegria que seu coração deve  estar experimentando!!!

- Dia 03 de dezembro - Todos os meus órgãos estão totalmente formados... Ih! já estou ficando grandinha!...

- Dia 11 de dezembro - Logo mais já poderei perceber a luz, as cores e até as flores. Deve ser tudo tão bonito!... Mas o que me enche mesmo de imensa alegria, é pensar que poderei ver minha mamãe!...

- Dia 12 de dezembro - Crescem-me os cabelos e as sobrancelhas. Como ficará feliz e contente a minha mãezinha com a chegada de sua filhinha querida!

- Dia 24 de dezembro - Ih! Meu coração está totalmente pronto. Vou ser uma menina cheia de vida e com muita saúde! Todos vão ficar radiantes com o meu nascimento.

- Dia 28 de dezembro - Ah! O que é isto?!!!!
 HOJE, MINHA MÃE ME MATOU!!!...



                                                     Isto é o horror do aborto! 

sexta-feira, 8 de setembro de 2017

RENÚNCIA À MINHA CONDIÇÃO DE ADULTO!!! - reedição -

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                                                              Imagem da Internet


Venho, por meio desta, renunciar INCONDICIONALMENTE à
minha condição de adulto! Resolvi que quero voltar a ter as mesmas
ideias e responsabilidades de uma criança de oito, nove anos. Quero
voltar a acreditar que o mundo é justo e que todas as pessoas são
honestas e boas; quero acreditar que tudo é possível; quero voltar a
não perceber as complexidades da vida e quero ficar maravilhado
com as pequenas coisas naturais que me encantavam; quero de volta
aquela vida simples e sem complicações. Cancei de computadores
que falham ou são lentos, das pilhas de papeis, das noticias
deprimentes, das CPIs, políticos ladrões, atentados, novos impostos, empregados
desonestos, patrões sacanas, contas a pagar, fofocas, doenças, mortes
de contemporâneos e de parentes e de ter que atribuir valor monetário
a tudo que me cerca. Não quero mais me preocupar em arranjar um
jeito de fazer o salário durar até o próximo pagamento e nem de ficar
torcendo para que aquele cara que me deve, pague no dia COMBINADO. Não quero
mais ser obrigado a dizer adeus à pessoas queridas e, com elas, a
uma parte da minha vida. Quero ir ao carrinho de cachorro-quente
ou à pizzaria e comer, achando que esses locais são bem melhores do
que aquele restaurante de luxo. Quero viajar ao redor do mundo mas,
desta vez, embarcado no meu naviozinho de papel que estou
navegando naquela poça ou na correnteza da vala, provocada pela chuva.
Quero poder jogar pedrinhas na lagoa tranquila e ter tempo para
observar as ondinhas que provocam. Quero achar que as moedas de
chocolate são mais valiosas que as de um real, porque posso
comê-las e ficar com a cara toda lambuzada. Quero ficar felíz
quando amadurece o primeiro caju ou a primeira manga, quando a
jabuticabeira fica com o tronco pretinho de frutas. Quero voltar
a achar que chicletes e sorvetes sao as melhores coisas da vida.
Quero que as maiores competições em que tenha de entrar, sejam uma
boa pelada ou uma disputa de pião, peteca ou bola de gude. Quero
voltar ao tempo em que tudo que eu sabia era o nome das cores, a
tabuada, as cantigas de roda, a " Batatinha quando nasce..." e o
"Pai nosso..." e isso não me incomodava nada porque eu não tinha
nem ideia de quantas coisas inúteis ainda ia aprender. Voltar ao
tempo em que se é feliz, simplesmente porque se vive na bendita
ignorância da existência de coisas que podem nos preocupar,
aborrecer ou magoar. Eu quero voltar a acreditar no poder de um
sorriso, de um abraço, de um agrado, de palavras gentis, da verdade,
da justiça, da paz, dos sonhos, da imaginação, dos castelos no ar
ou na areia. E mais: quero estar convencido de que tudo isso vale
muito mais do que o dinheiro! Por isso tudo é que eu digo: peguem
aqui as chaves do carro, a lista do supermercado, as receitas
médicas, os talões de cheque, os cartões de crédito, o contra-cheque,
os crachás de identificação, o pacotão de contas a pagar, a
declaração do imposto de renda, as senhas do meu computador e
dos bancos e resolvam as coisas do jeito que bem entenderem! A
partir de hoje, isso tudo é com vocês, porque:
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ESTOU ME DEMITINDO DA VIDA DE ADULTO!!!.  

Agora, se você quiser discutir a questão, vai ter de me achar, porque
vou brincar de esconde-esconde... e é a minha vez de me esconder!...
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Um ótimo final e semana , abraço a todos os amigos e visitantes.
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Clóvis e GuarajubaONG Ande & Limpe

sexta-feira, 1 de setembro de 2017

A história da Professora AFONSINA - final -

                            A Professora AFONSINA, à época de sua passagem por Oriximiná.


Para encerrar com chave de ouro a magnífica e resumida história da Professora AFONSINA em sua passagem marcante pela cidade de Oriximiná, passo a narrar, de maneira também sucinta, um episódio tão ou mais marcante do que aquele do lançamento da semente da " merenda escolar ", protagonizado pela notável mulher que, pra meu orgulho, me gerou:
Preciso dizer que quis o destino trazer para dirigir os trabalhos da Escola de Educação Infantil
Professora AFONSINA ELINDA ARAGÃO DE SOUZA, uma mestra igualmente abnegada e caprichosa, a Professora LEILEUNICE WANZELLER, cuja dedicação e competência tornaram a Escola um exemplo de eficiência e profissionalismo. Pois bem, o episódio que passo a narrar - vejam só que feliz coincidência - me foi comunicado por ela, a Diretora, tendo como sua fonte de informação, ninguém menos que sua própria mãe!
Há uma família que vive na cidade desde a metade do século passado, sendo que muitos de seus membros são cidadãos e cidadãs de destaque na sociedade local, ainda hoje. Pois bem, lá pelo final da década de 1940 e inicio de 1950, adoeceu gravemente uma das filhas do casal, cabeça desta família.Doença grave e não diagnosticada à  época, passou a ser tratada com medicamentos tradicionais e até com plantas medicinais, amplamente usadas com eficácia em muitos e muitos casos de enfermidade. Infelizmente, a tal doença misteriosa não cedeu e levou a pequena e desditosa vítima a óbito. Pode-se imaginar facilmente o sofrimento que acometeu a família enlutada que, compreensivelmente, ficou por algum tempo desnorteada e sem poder raciocinar com clareza. Foi aí que apareceu a clarividência da Professora AFONSINA, uma das colaboradoras no ingente mas  frustrado esforço para salvar a vida da menina. Como ninguém sabia de que moléstia a vítima fora acometida, D. AFONSINA sugeriu a transferência de todos os membros da família para a sua própria casa - o que foi aceito prontamente e com muita gratidão - enquanto, sob seu comando, se providenciava a desinfecção completa e à exaustão, da casa da família, o que durou por volta de uma semana, finda a qual, pode a família retornar ao lar, sem risco de possível contaminação pelos agentes patológicos desconhecidos e possivelmente remanescentes, de evidente perigo, desde que não erradicados.
Ora, meus amigos e leitores, como não se orgulhar de uma mulher dessa têmpera !
Somos, meus irmãos e eu, pessoas privilegiadas e orgulhosas de nossa mãe, heroína e mulher de iniciativas e ações muito à frente do seu tempo!!!
Sempre enalteceremos seus feitos, tendo toda a certeza que ela não teve uma passagem em branco pela sua vida e nem pela vida da cidade que a acolheu como se sua filha fosse!

Bom fim de semana.
Até a próxima sexta-feira.










sexta-feira, 25 de agosto de 2017

- A história da Professora AFONSINA - XV -


Eu e meu irmão CLÉO, posando orgulhosamente na frente da Escola
PROFESSORA AFONSINA ARAGÃO, no dia de sua inauguração.




A " Turma da Fome ",
 como é evidente, foi
assim designada porque
 seu funcionamento
abrangia a chamada
" hora do almoço ".
 Tal apelido era um estigma pejorativamente
 repetido pelos alunos que frequentavam as aulas nas
turmas consideradas " normais ",
 isto é, as dos horários
 matutino e vespertino.
É evidente que tal circunstância  gerava grande consternação e constrangimento em todos os alunos e, principalmente, nos professores, destacando-se, por motivos óbvios, na Professora AFONSINA, responsável pela turma.
De tal fato eu não tinha nenhum conhecimento, até que no ano de 2011, quando fui passar a " Festa
de Agosto " lá em Oriximiná - o lindo e famoso Círio Fluvial - em determinada noite, no arraial da Praça  da Matriz, conversando com alguns conhecidos, me foi contada toda a história desta turma intermediária, por alguém que participou da mesma. Contou-me ele - hoje um respeitável e importante membro da sociedade local - que a sua Professora, D. AFONSINA, em determinado dia, chegou ao Grupo trazendo para a sala de aula, com a ajuda do meu irmão DEZIZÉ, algumas latas de leite Ninho que foram colocadas sobre a mesa. Todos ficaram naturalmente curiosos e esperavam ter uma explicação para o ato inusitado da mestra. Ela nada disse, até que chegou a hora do intervalo. Só então explicou aos alunos que resolvera trazer-lhes uma merenda e, incontinente, passou a distribuir com todos. Feita a devida fila, encarregou alguém da turma para proceder à distribuição do alimento, sob sua atenta supervisão. Ou seja, numa época em que sequer se cogitava em merenda escolar, a Professora AFONSINA, sob suas expensas, instituiu algo que certamente evitou a evasão escolar que, embora pequena naquela época, sempre ocorria por necessidades extremas e carências de alguns alunos. Claro que esta narrativa, feita com a mais absoluta isenção, me provocou uma emoção tal, que acabei por perder a voz e chorar... Abracei de maneira efusiva o narrador  e disse-lhe que aquele fato aumentava significativamente em mim, o já imensurável orgulho e admiração que tenho, por ter sido gerado por alguém tão especial!
Lamentavelmente, foi preciso que uma ex-aluna da Professora AFONSINA, a ilustre Professora Doutora HILDA VIANA, assumisse a Secretaria de Educação do Município de Oriximiná, para que houvesse o reconhecimento dos méritos e das iniciativas filantrópicas e pioneiras da Professora AFONSINA, consubstanciado na inauguração de uma escola modelo com o nome da ilustre mestra. Para minha imensa emoção e orgulho, fui destacado, na condição de seu filho mais velho ainda vivo, para representar a família da homenageada, o que fiz na companhia de meu querido irmão CLÉO AFONSO ARAGÃO DE SOUZA, certamente tomado por um orgulho e uma emoção igualmente indescritíveis!
Sou mesmo um privilegiado porque poucas pessoas têm na família DOIS IMORTAIS:
Um irmão, membro da Academia Paraense de Letras - JOSÉ FIGUEIREDO DE SOUZA e
minha mãe, imortalizada no nome de uma escola - AFONSINA ELINDA ARAGÃO DE SOUZA!!!

Em tempo: eu próprio acabo de ser também imortalizado através da publicação de um comentário que fiz, sem nenhuma pretensão, sobre uma das obras - Miolo de Pão - do grande escritor e membro da Academia Paraense de Letras, AGILDO MONTEIRO CAVALCANTE. O generoso escritor e acadêmico, usou meus comentários para compor a contracapa de seu mais novo livro, o recém lançado, " A LUZ MISTERIOSA ".                                                                  

                                                                 
Bom final de semana a todos e
até a próxima sexta.

  

sexta-feira, 18 de agosto de 2017

- A história da Professora AFONSINA - XIV -


                            Neste prédio funcionava o Grupo Escolar Padre José Nicolino.
                                                        - Foto de Edilberto Guerreiro -


Lá por volta do ano de 1950, apesar de já cheia de afazeres, AFONSINA começou a ensinar ( já de volta à casa da praça da Matriz ), às crianças e jovens da redondeza que a procuravam se queixando de dificuldades no aprendizado regular, ministrado no Grupo Escolar Padre José Nicolino, então, o único estabelecimento de ensino da cidade. Como também não cobrava por este serviço, era natural que, ao tomarem conhecimento do fato, as mães de outros alunos passassem a apresentar seus filhos, igualmente com dificuldades de aprendizado, solicitando à Professora AFONSINA permissão para frequentarem às aulas por ela ministradas na sua própria residência. Daí até ser convidada para lecionar no " grupo ", foi um pulo; logo começava a carreira " oficial " da professora que, tão generosamente, transferia conhecimentos para tantas crianças e jovens - o DEZIZÉ, eu e o CLÉBER, inclusive - de maneira espontânea e eficiente.
Assim se iniciou  a nobre tarefa da AFONSINA, Professora, que consiste em repassar seus conhecimentos didáticos e, principalmente de vida em sociedade e em família, para a juventude, futuro desta mesma sociedade.
Transcorreu aproximadamente um ano, até se descobrir que a população da cidade, em idade escolar, aumentara de maneira surpreendente. O que fazer para absorver tal população, se o espaço físico não acompanhou este crescimento, já que não se construíram outros estabelecimentos de ensino? Uma reunião do corpo docente decidiu que, emergencialmente, criar-se-ia um terceiro turno de aulas que, por não haver energia elétrica contínua e eficiente, não poderia acontecer à noite. Logo surgiu a ideia de implementar-se este novo turno no horário de 10,00 às 14,00 h. Decisão tomada, passou-se a procurar a professora que tomaria conta desta nova turma, constituída pelos alunos que superlotavam as salas de aula das séries mais concorridas. Uma reunião foi convocada para discutir e determinar qual das mestras ficaria encarregada de conduzir a nova turma. Foram inquiridas todas as professoras presentes e nenhuma se apresentou voluntariamente para tal mister. Sob as mais variadas alegações, que iam desde à necessidade de afazeres domésticos até a outros compromissos assumidos para aquele horário, uma a uma das presentes declinou de assumir aquela tarefa. Foi quando a Professora AFONSINA, entendendo que nada seria resolvido sem a confirmação de uma delas para executar tal serviço, se apresentou como voluntária e foi imediata e entusiasticamente " aclamada "  pelas presentes.
 Diga-se de passagem, que tarefas domésticas não faltavam para quem, àquela altura, já tinha cinco filhos e o marido para cuidar, além de continuar a prestar serviços à comunidade na área farmacêutica!
 Logo, logo, a tal turma intermediária, passou a ser estigmatizada pelos outros alunos componentes das turmas consideradas " normais ", cujo funcionamento se verificava nos horários matutino e vespertino. O estigma se materializou no  nome conferido pelos colegas à turma intermediária: " Turma da Fome ". Tal cognome originou uma atitude inusitada da Professora AFONSINA que, por seu significado, estará em destaque na próxima e penúltima postagem...

                                                                   

Até a próxima sexta-feira.
Bom fim de semana a todos.

sexta-feira, 11 de agosto de 2017

- A história da Professora AFONSINA - XIII -


 
            Meu Pai, CHICO MARTINS, na farmácia de sua propriedade onde
             minha mãe AFONSINA o ajudou, lá trabalhando por muitos anos.
         ( desculpem pela qualidade da foto; é a única que tenho daquela época ).



Como já dito, foi minha mãe que descobriu, horrorizada, que já não mais me encontrava sobre
a ponte. Gritou a plenos pulmões, chamando a atenção do meu pai que, incontinente, subiu
na ponte e, sem ter a mínima noção de para que lado eu havia caído, se jogou às cegas e,
para minha felicidade, me encontrou preso de encontro ao caule de algumas canaranas*,
vegetal muito comum naquelas plagas. Paradoxalmente, foi a correnteza violenta do rio que
me salvou: é que sob sua pressão, fiquei preso de encontro a vegetação. Foi por puro
acaso e sorte que meu pai me encontrou, pois as águas do Cachoeiri são de tal modo
carregadas de matéria em suspensão, que é absolutamente impossível enxergar alguma
coisa quando nelas mergulhamos. Fui resgatado aparentemente morto. No desespero que
se seguiu ao resgate, fui sacudido violenta e sucessivamente por meu pai e minha mãe,
até que, após alguns minutos, voltei a respirar, para alivio e felicidade dos dois e
principalmente para minha felicidade...Nunca mais descuidaram de mim e D. Dira foi
advertida para não me perder de vista jamais!
A segunda gravidez não teve sucesso. Nascido prematuro, aquele que se chamaria  
CLODOALDO, não conseguiu sobreviver. Assim, o segundo filho seria o CLÉBER,
nascido em 11 de março de 1943. Infelizmente já o perdemos, num desastre de veículo
ocorrido em 09 de abril de 2006, mercê do trânsito louco e inconsequente dos nossos
dias. Aproveito, então, esta passagem da narrativa, para declinar, em ordem cronológica,
um por um, todos os filhos da Professora AFONSINA; não perca as contas: CLÓVIS
( o autor ), nascido em 18.10.1941; CLÉBER, nascido em 11.03.1943 ( já falecido );
 em 11 de outubro de 1945, nasceu o CLENALDO FRANCISCO ( já falecido );; em 18 de
dezembro de 1948, nasceu o CARLOS LEONEL; em 14 de janeiro de 1954, nascia o  
CLÉO AFONSO; em 02 de março de 1955, finalmente nascia a tão esperada primeira
filha, CLEMENS MARIA; e aí só viriam mais duas filhas: a CLEIDE MARIA, nascida
em 16 de novembro de 1956 e a CLEISY RITA, a caçula, nascida em 24 de abril de
1959.
 É necessário dizer que, além dos filhos e filhas já citados, a Professora  
AFONSINA e o CHICO MARTINS, seu esposo, acolheram, prazerosamente no seio
da família, ainda criança, o DEZIZÉ que consideravam também um filho e que nós
aprendemos a amar como um irmão mais velho. Infelizmente o perdemos, em 19 de
outubro de 1999, para um problema cardíaco que o acometeu quando tinha apenas
68 anos, não resistindo às complicações advindas da cirurgia a que foi submetido.
Com o trabalho diuturno desenvolvido na farmácia, AFONSINA passou a adquirir
conhecimentos tais que, além de inúmeras vezes tratar com sucesso muitas pessoas
da comunidade, principalmente dos mais carentes e interioranos, frequentemente
acidentados no trabalho, passou a elaborar fórmulas muito eficazes no tratamento de
problemas de pele, tais como eczemas, pano-branco e outros, além de xaropes feitos
 com a utilização de ingredientes naturais da flora da região, muito eficazes no tratamento
 de problemas respiratórios. Cobrar algo pelos serviços, só de quem tinha condições.
 A maioria das vezes, mesmo sem cobrar, era " presenteada " com produtos frutos do
 trabalho daquelas pessoas simples, geralmente peixe, leite de vaca, queijos artesanais,
 pirarucu seco ou salgado, tartaruga, tracajá, " piracuí "* e outros itens que tais.
Seus conhecimentos farmacêuticos se tornaram  tão vastos que lhe foi concedida
a inscrição no Conselho Estadual de Farmácia do Estado do Pará, cujas anuidades
 pagou religiosamente até seu lamentável e precoce desaparecimento...                                                                          

* canarana - gramínea gigante originária da Amazônia, que tem seu habitat nas margens
 dos rios. Seu nome é derivado do Latim " cana ", referente ao talo das gramíneas e do
 Tupi " rana ", que quer dizer " parecido ".

* piracuí - método usado na região para conservação de pescados, que consiste em
 transformá-los em farinha depois de completamente desidratados.

Continua na próxima sexa-feira.
Bom fim de semana a todos.

sexta-feira, 4 de agosto de 2017

- A história da Professora AFONSINA - XII -


                                O rio Cachoeiri hoje. Note-se o rebojo provocado pela 
                                            correnteza brutal, e a erosão da margem...                                                                                           

Para que vocês entendam a gravidade da situação em que se encontrava a criança,
sumida repentinamente da ponte e que tinha, na realidade, caído no rio, é preciso
esclarecer, principalmente aos leitores que não têm a felicidade de conhecer a Amazônia,
que o rio Cachoeiri, às margens do qual fica a fazenda, é uma das duas únicas ligações
diretas entre a calha principal do rio Amazonas e o curso do rio Trombetas, seu afluente
pela margem esquerda. Conclamo-os a um exercício de raciocínio: imaginem o que
significa, em volume de água, a invasão do maior rio do mundo a um riozinho que, àquela
época, tinha mais ou menos uns 100 m de largura! A correnteza é brutal. As margens e o
leito do Cachoeiri são arrancados pelas águas violentas do Amazonas, tornando-o cada dia
mais largo e mais profundo. Vale lembrar que, geologicamente, o Amazonas é um rio novo
e ainda não definiu seus limites; assim, continua escavando seu leito e erodindo suas margens,
transformando-os em sedimentos que, levados pela corrente, vão formar novas ilhas e
bancos de areia, alhures. Por causa deste fenômeno é que, independente da qualificação
profissional e\ou experiência que detenham os comandantes de navios vindos de todo o
mundo para esta região, ao chegarem à foz do Amazonas, nas proximidades de Salinópolis
( Salinas para os íntimos ), o comando desses verdadeiros " monstros ", capazes de carregar
até 80.000 t de carga, é assumido, obrigatoriamente, por um profissional local denominado
" Prático " .Esta providência é tomada porque o leito do rio é, diuturnamente,
modificado: ora desaparecem ilhas e bancos de areia já aparentemente consolidados,
ora surgem, onde pouco antes nada havia, novas ilhas, cuja detecção só pode ser percebida
por quem conhece as " manhas " desse colosso ciclópico. Assim se evitam os encalhes,
muitas vezes irremediáveis, das embarcações. Conheço razoavelmente esta função de
comando, não só porque já tive um barco de pesca baseado em Belém, no qual
empreendi inúmeras viagens pelo rio, mas por ter dois tios - tio TITO ARAGÃO e tio
PAULO ARAGÃO - e dois primos - ALBERTO ARAGÃO e LEONEL ARAGÃO
- que exerciam as funções de comandante e prático da Marinha Mercante na Região
Amazônica, conduzindo seus navios, não raras vezes, até a cidade de Iquitos, no Peru.
Além de tudo isto, tive o privilégio de viajar de carona em um graneleiro carregado
com 50.000 t de bauxita, de Porto Trombetas até Barcarena, graças à amizade do
meu irmão CLENALDO ( de saudosa memória ) com o seu comandante. Este meu irmão, à época, trabalhava na empresa Mineração Rio do Norte, desde a chegada desta mineradora ao Rio Trombetas.
Durante esta viagem, tive oportunidade de conhecer a sala de máquinas ( impressionante ) e a sala de comando e constatei que, não obstante toda a parafernália eletrônica, a presença de um profissional da região - o chamado PRÁTICO -  no seu comando, é imprescindível.
Mas, depois desta necessária explicação, voltemos ao menino que caiu no rio...

       
Continua na próxima sexta-feira.
Bom fim de semana a todos.

sexta-feira, 28 de julho de 2017

- A história da Professora AFONSINA XI


Ponte semelhante à descrita no artigo, construída por mim às margens da lagoa, em Guarajuba - Ba.

E a vida seguia normalmente, quando, no final do ano de 1941, veio a transferência do Dr. Bruzza para outra cidade, desta vez, Catanduva, no interior de São Paulo.
 Logo que chegou à cidade, o Dr. Bruzza, entendendo que sua mulher,  vinda da Capital, precisaria de alguma atividade para quebrar a monotonia própria da vida em uma cidade do interior da Amazônia, tratou de abrir, em seu nome, uma farmácia, não apenas útil para sua mulher mas, principalmente, para a população local, carente de recursos terapêuticos.
E, antes de viajar para o novo destino, acertou a venda do estabelecimento para o amigo - e agora cunhado - FRANCISCO, chamado por todos de CHICO MARTINS. Mais uma atividade exigindo a presença do já sobrecarregado FRANCISCO. AFONSINA, então, passou a dividir os afazeres domésticos com o atendimento na farmácia, uma vez que o casal resolvera deixar provisoriamente, a casa da praça da Matriz, para morar nas dependências amplas do prédio onde funcionava a farmácia recém adquirida.
Logo no início do ano de 1942, a morte levara seu amigo, protetor e patrão, JOSÉ FIGUEIREDO. Como seu antigo sogro havia comprado a pequena fazenda do Cachoeiri em nome de sua filha caçula, LAURINDA, quando ela morreu a propriedade passou a pertencer aos meeiros, seu filho JOSÉ e seu esposo FRANCISCO.
Pretendendo ampliar os negócios da fazenda, FRANCISCO adquiriu algumas cabeças de gado, ampliando o plantel já existente, além de dois cavalos que o vaqueiro, seu Alfredo, que já trabalhava na fazenda, usaria para a labuta com o gado.
O casal, FRANCISCO e AFONSINA, passou a frequentar com mais assiduidade a propriedade, embora as viagens de canoa a remo, demandassem grande esfôrço do Alfredo que vinha do Cachoeiri até a cidade buscar o casal com seu filhinho, além de víveres e insumos. Já grávida pela segunda vez, numa dessas estadas lá na fazenda, aconteceu uma quase tragédia envolvendo o menino, ou seja, EU: É preciso esclarecer que, naquele tempo, nem na cidade havia água encanada, muito menos nas sedes das fazendas ou nas casas dos ribeirinhos. As atividades relacionadas com água, eram desenvolvidas nas margens dos rios. Para tal mister, construíam-se pequenas pontes de madeira projetadas sobre o rio, geralmente na frente das casas ou sede das fazendas. Ali, tomava-se banho de cuia e lavavam-se roupas, louças, panelas e outros utensílios. Em determinada tarde de temperatura elevada, o casal desceu para o banho levando o menino, isto é, - EU - que, a esta altura, deveria ter uns oito/nove meses de idade. Por infeliz coincidência, o casal formado pelo vaqueiro Alfredo e D. Dira, sua mulher - agora transformada em minha babá - tivera a necessidade de visitar um parente, chamado Manoel Gualberto que estava doente e morava rio acima. Os   dois entraram na " montaria " * e lá se foram para o compromisso.
 Ao chegarem à beira do rio, o casal colocou a criança sobre a ponte  e entrou na água para tomar banho. Devem ter se distraído por um momento e, quando AFONSINA olhou para onde haviam deixado o menino, ele já não mais lá se encontrava!...


* montaria - designação genérica de pequenas canoas movidas a remo que os habitantes do Baixo Amazonas usavam nos seus breves deslocamentos, talvez por comparar a pequena embarcação,com os animais de monta, também usados em pequenos deslocamentos, só que em terra.


Continua na próxima sexta-feira...
Bom fim de semana a todos.
       
                                                             

sexta-feira, 21 de julho de 2017

A história da professora AFONSINA - X -






                                                                 - Imagem Internet -


                                                                      - Imagem Internet -


Bem diferente do casamento de LAURINDA e FRANCISCO, a cerimônia do enlace de  AFONSINA e FRANCISCO transcorreu sem muita pompa, não somente pelo fato de a maior parte da família da noiva ser originária da capital, Belém e não se encontrar na cidade, como pela razão totalmente compreensível, evidenciada pelo pouco - para a época - tempo decorrido desde a morte  da
 D. LAURINDA.
 Vale a explicação que, naquele tempo, o luto era demonstrado acintosa e pesarosamente, com o uso de roupas pretas durante os primeiros 6 meses após a morte do cônjuge ou parente mais próximo, pelos homens e durante um ano pelas mulheres. Aos homens, a partir do sexto mês , era " permitido " o uso de uma tarja confeccionada com tecido preto, chamado popularmente de " fumo ", ostentada geralmente no bolso da camisa, à altura do peito esquerdo.
Ainda assim, foi uma festa bonita para os padrões da época.
E logo veio a primeira gravidez! Menina embora, AFONSINA não demonstrou sentir nenhuma anormalidade das que costumam acometer às grávidas, principalmente no início do processo. Enquanto a gravidez transcorria dentro dos padrões, a jovem - agora, repentinamente, transformada em " dona de casa " - passou a dedicar-se totalmente aos encargos inerentes à nova realidade. Mas ela não se limitou a cumprir suas tarefas caseiras, no início de maneira mais ou menos eficiente devido à pouca idade. Como tinha um talento inato para a pintura e muita perícia em trabalhos manuais, aproximou-se, naturalmente, das pessoas da comunidade que tinham dons afins. Assim é que se tornou amiga e aluna de D. Dalila, doceira de " mão cheia " que, além de vizinha, era a irmã mais velha da falecida LAURINDA, primeira mulher de FRANCISCO, agora seu esposo. D DALILA era tão boa na arte de fazer e decorar doces e, principalmente, bolos confeitados, que alguém criou, baseado numa marchinha de carnaval de sucesso na época, que dizia:
 "Ah! quem me dera Dalila, Dalila que eu fosse o Sansão! os teus encantos Dalila, de Sansão a sua perdição...".
 e a paródia criada ficou assim:
 " Ah! quem me dera DALILA, se eu fosse o MARCOS TEIXEIRA, eu te pegava DALILA e te mandava pra " Palmeira..." .
  MARCOS TEIXEIRA - Juiz de Paz da cidade - era esposo da D. DALILA  e " Palmeira "  era uma famosa e prestigiada fábrica de doces e biscoitos localizada em Belém.
 Esta aproximação se deu, também, com D.LAURA DINIZ - chamada carinhosamente de D. LAURINHA - que promovia principalmente espetáculos teatrais, produzindo e encenando, como diretora, peças infantis tais como Branca de Neve e os Sete Anões e outras.
E a gravidez, sem nenhuma intercorrência, chegou ao seu clímax às 6 h da manhã do dia 18 de outubro do ano de 1941. Nascia, neste dia, o primogênito, pelas mãos experientes e competentes de D Lucila, desta vez sob a supervisão profissional do cunhado da parturiente, Dr. BRUZZA. E o recém- nascido, menino saudável e robusto, inundou de alegria aquele lar improvável devido à brutal diferença de idade entre o casal. Nome escolhido, logo se providenciou o batismo do bebê. Chamar-se-ia CLÓVIS e teve como padrinhos o casal JOSÉ DINIZ e sua esposa, D. LAURINHA DINIZ.
 O sacramento foi ministrado pelo Frei PROTÁSIO, pároco local, em frente ao altar mor da igreja de Santo Antonio, uma joia em madeira de lei, arte inigualável, hoje inexistente, vítima da sanha destruidora e ignorante de um padre alemão, chamado  Fortunato Lamprecht, de triste memória.
 Até hoje não entendo porque a comunidade oriximinaense permitiu que um energúmeno,
 ( interpretando de maneira errônea a Encíclica Papal ) saído não sei de que buraco, transformasse a madeira do altar sagrado,  até em lenha para fogueira!...

                                                         
Continua na próxima sexta-feira...
Bom fim de semana a todos.