sexta-feira, 29 de dezembro de 2017

- INDÍCIOS DE INCAS NA AMAZÔNIA PARAENSE - final -






Além das peças retratadas nos dois artigos anteriores, havia objetos e utensílios 
da época pré-histórica, mais precisamente do período Neolítico ou da pedra polida, 
ocorrido entre os anos de 12000 a.C. até 4000 a.C. São evidências de tal afirmativa 
as fotos que ilustram o presente artigo, representando, por sua aparência, uma 
espécie de tacape e um instrumento cortante parecido com um machado de 
tamanho reduzido, ambos elaborados em pedra polida. Levando em consideração 
as informações, sem muita precisão, reveladas ao meu companheiro de viagem pelo 
caboclo de quem ele adquiriu as peças, que davam conta das profundidades em que 
os objetos foram coletados, isto é, entre mais ou menos 80 cm e 8 m, podemos 
chegar a conclusão que:
a - As peças representativas de artesanato Inca, encontradas entre 80 cm e 1 m, 
devem ter por volta de 400 anos;
b - Os objetos da era da pedra polida, encontradas a mais ou menos 8 m de 
profundidade, seguindo o mesmo raciocínio, as colocaria em cerca de 6100 anos 
atrás, coincidindo com o fim do período Neolítico, demarcado pelo invento da 
escrita no ano 4000 a.C..
Ora, se tais parâmetros de tempo estiverem mais ou menos corretos, chegaríamos, 
no que diz respeito aos Incas, justamente ao período em que os espanhóis - 
Francisco Pizarro e seus comandados - chegaram à região por eles habitada, isto 
é, o ano de 1531. Como não tenho condições de proceder à datação com carbono 
14 das peças, uma vez que não as possuo,  só me restaria proceder ao estudo da 
quantidade de material em suspensão existente nas águas do Amazonas
anualmente depositado em suas margens por ocasião das enchentes. Claro que 
tal estudo demandaria tempo e apuro técnico, além de grana, para que seus 
resultados tivessem condições absolutas de credibilidade científica. Na falta 
desses elementos, reservei-me o direito de atribuir um depósito de mais ou menos 
20 cm de material, carreado pelas águas do Amazonas, a cada século. Não 
acredito que tal medida esteja totalmente fora da realidade se levarmos em conta 
a enorme quantidade de sedimentos em suspensão deslocada pelo grande rio.
Duas grandes conclusões poderão ser tiradas de tudo aqui revelado sob o aspecto 
histórico:
1 - O povo Inca se fixou por algum tempo na região compreendida entre a divisa 
dos estados Pará/Amazonas e a cidade de Óbidos, no Pará;
2 - Desde a pré-história - período Neolítico ou da pedra polida - o homo-sapiens 
habitava a região da Amazônia Paraense.




Um ótimo final de semana aos meus amigos e visitantes. Voltem sempre e deixem
seus comentários.

Abraço,

Clóvis de Guarajuba
ONG Ande & Limpe

sexta-feira, 22 de dezembro de 2017

- INDÍCIOS DE INCAS NA AMAZÔNIA PARAENSE - I -






Antes de apresentar minha tese que explicaria a presença de membros do império 
Inca  nas terras localizadas entre a divisa dos estados Pará/Amazonas e a cidade 
de Óbidos no Baixo Amazonas paraense, é necessário fazer uma viagem ao 
passado. Começaria por uma rápida visita à história dos Astecas ao tempo da 
chegada dos europeus ao Novo Mundo. Fernando Cortez chegou por volta dos 
anos de 1517 ou 1518, encontrando o império Azteca em pleno florescimento, sob 
o comando de Montezuma II e, depois de  conquistar a confiança do ingênuo gentil, 
acabou por assassiná-lo, assim como à maioria de seu povo, no ano de 1520
Logo assumiu seu lugar aquele que seria o último imperador dos Aztecas 
chamado Cuauhtémoc. Cortez impôs um novo morticínio, desta vez liquidando 
com os Aztecas. Claro que alguns remanescentes, vendo as atrocidades perpetradas 
pelo espanhol e tendo consciência que nada poderia ser feito para neutralizar as armas 
por ele usadas, devem ter fugido, uma parte rumo ao sul, onde a partir da parte 
meridional da Colômbia, acabaram por contactar os Incas para os quais narraram 
as terríveis consequências advindas com a presença dos europeus. Penso que 
esta fuga deve ter durado uns cinco anos, tempo suficiente para alguns 
remanescentes chegarem até o limite norte do império Inca. A brutal descrição 
dos episódios, feita pelos recém-chegados, deve ter alarmado o povo Inca que 
passou a temer a chegada de tais assassinos aos limites do seu império. Foi 
sob o impacto dos acontecimentos lá no império Azteca, que os Incas viram 
chegar aos seus domínios, no ano de 1531, um outro espanhol, Francisco Pizarro
Tal qual seu conterrâneo Cortez houvera feito com os Aztecas, também começou 
por angariar a simpatia dos nativos, com o único objetivo de descobrir, sem
necessidade de conflito, os tesouros que imaginava escondidos pelos Incas.



A simples chegada de 
homens barbudos, 
portando armas 
desconhecidas, mas 
já descritas pelos 
Aztecasinclusive 
quanto a sua letalidade, 
deve ter feito alguns 
componentes do império 
Inca fugir, temerosos 
das consequências 
sinistras que adviriam, 
se permanecessem 
convivendo com os invasores. 
Assim, resolveram fugir 
imediatamente, aproveitando 
para isto o fácil roteiro de 
fuga oferecido pela 
correnteza das águas 
dos rios da região. Vale 
lembrar que o rio Amazonas 
é navegável, inclusive por 
navios de grande porte, até a cidade 
de Iquitos, no Peru

A maioria das famílias fugidas deve ter levado consigo artefatos, objetos 
domésticos, símbolos religiosos e até ídolos, retratados em peças de cerâmica, 
madeira ou até em ouro. As ilustrações que apresento neste artigo e no artigo da 
semana passada, nos dão conta de imagens antropomorfas e de animais 
estilizados, principalmente condores, pássaro só encontrado nos Andes. Longe 
de pretender ser o dono da verdade, submeto estas minhas anotações e ideias 
aos doutos no assunto, apenas esperando ter colaborado para a explicação da 
presença dos Incas na Amazônia Paraense.



Continua na próxima postagem...

Um excelente final de semana a todos, obrigado pelas visitas.
Abraço,

Clóvis de Guarajuba
ONG Ande & Limpe



sexta-feira, 15 de dezembro de 2017

- INDÍCIOS DE INCAS NA AMAZÔNIA PARAENSE - introdução -



Na última viagem que fiz à Amazônia, no mês de março passado, conheci 
um companheiro de viagem a bordo do navio que me levou de volta à Belém, 
procedente de Oriximiná, onde fui visitar alguns amigos. Ao final do primeiro 
dia já havia uma certa empatia no nosso relacionamento fruto das longas 
conversas sobre assuntos diversos, por nós mantidas durante a viagem, até então. 
Possuidor de razoável conhecimento geral, tinha uma fácil conversa sobre os mais 
variados assuntos, até que, em determinado momento, revelou-me que comprara 
de um certo caboclo da região, algumas "caretas de índio", termo usado pelos 
ribeirinhos para designar fragmentos de artesanato, principalmente cerâmicos, 
muito comuns na região, elaborado por silvícolas outrora  radicados no denominado
Baixo Amazonas ". Claro que mostrei-me vivamente interessado. Em resposta à 
pergunta que lhe fiz - se poderia ver tais fragmentos - ele prontamente buscou em 
uma sacola que se encontrava debaixo da rede onde dormia, um pacote 
cuidadosamente protegido por pedaços de isopor. Fiquei realmente deslumbrado 
ao ver tais objetos. Tratava-se de partes de vasos e outros objetos artesanais que 
me trouxeram ao pensamento, instantaneamente, a arte INCA há muito vista e 
estudada nos livros de história. Mas ,como seria possível?! Os INCAS estavam 
radicados lá na Cordilheira dos Andes, a cerca de 3000 km do local onde o meu 
amigo comprara as peças. Seu vasto império se espalhava desde o sul da 
Colômbia até  a parte central do Chile, porém, sempre às proximidades da 
cordilheira. Para não despertar a curiosidade do companheiro de viagem, detentor 
das relíquias, mantive-me mais ou menos calmo, sem demonstrar nenhuma 
ansiedade, até que consegui a permissão para fotografar algumas daquelas 
peças... No dia seguinte, logo após o café da manhã, procurei novamente me 
aproximar do dono das peças. Meu objetivo era saber a exata localização do 
sítio arqueológico. Nada consegui, pois me foi dada a explicação que tudo aquilo 
era sigiloso e o tal caboclo que vendera o achado, se negara terminantemente a 
revelar o lugar de origem: alguém o havia advertido que, se uma entidade ligada 
ao assunto - tipo o Museu Emílio Goeldi, de Belém - soubesse da exata localização 
do sítio e esse lugar fosse próximo a sua casa, ele seria deslocado imediatamente 
para outro local. Disse apenas que não foi preciso nenhuma escavação porque 
o rio, ao provocar o fenômeno denominado de " terras caídas ", acabara por 
revelar aquelas peças e ele só teve o trabalho de coletá-las. É possível que o rio 
já tivesse levado boa parte dos objetos pois ele, apenas por acaso, passara de 
canoa pelo local e vira alguns objetos na margem, a uma profundidade que variava 
de cerca de 80 cm a 8 m. abaixo da superfície do solo. Durante o resto da viagem, 
comecei a elaborar mentalmente uma teoria que poderia explicar a possível presença 
de membros do Império Inca em local tão distante dos Andes. Tal teoria será assunto
 para a próxima postagem.

Continua na próxima sexta-feira....

Bom final de semana a todos os amigos e visitantes.
Abraço,

Clóvis de Guarajuba
ONG Ande & Limpe

sexta-feira, 8 de dezembro de 2017

- MIOLO DE PÃO - final -





" Depois de navegar quanto bem quis, tendo os pés como *palhetas, Miolo de Pão procurou
o barraco do bêbado, mas não o localizou entre tantos barracos da invasão do Riacho Doce.
Miolo de Pão se acordou de madrugadinha pelo barulho que sacudia a cidade. Era como se
a cidade toda estivesse caminhando de pés descalços. Vozes se multiplicavam a todo instante.
Brinquedos de miriti passavam suspensos em enormes cruzetas. Pessoas vestidas de camisolões
brancos passavam apressadas para o centro urbano. O que estava acontecendo?
O pato procurou explicações nas águas do Tucunduba. Quando lá chegou, já estavam cheias
de pessoas, umas tomando banho com baldes, outras nadando no meio das águas.
Miolo de Pão compreendeu que já estava bastante atrasado em sua programação.
Antes tentou entrar no primeiro barraco que encontrou. Colocou o bico dentro da casa
procurando sentir os cheiros que vinham da cozinha. Como os moradores eram tão pobres que
não tinham dinheiro para comprar pão, de lá não chegava nenhum cheiro de miolo.
E o pato foi gingando à procura de outras portas.
Na terceira, de lá pra cá, de cuja cozinha não vinha cheiro de nenhuma espécie, alguém
chamou o animal, carinhosamente, talvez pensando no almoço do dia. Miolo de Pão tratou de
andar ligeiro e levantou voo à procura das águas do Tucunduva.
Enquanto se ouvia, ao longe, o espocar dos fogos de artifício, saiu um pequeno batalhão de
menores, dos duzentos mil que habitam Belém em absoluta miséria, à procura de completar
a "meia comida e meia escola".
Rita avistou da porta da sua casa o João Felício, que ia passando de pés descalços para
acompanhar o Círio.
- Bom dia, seu João!
- Bom dia, Dona Rita.
- Não vai acompanhar o Círio? - João quis saber.
- Vou. Vamos eu e o Dagoberto.
- O senhor ainda trabalha no barco "Rodrigues Alves"? - perguntou Rita.
- Ainda, dona Rita.
- Ele continua fazendo viagem pra Cametá?
- Continua.
- Aconteceu alguma coisa? - perguntou João Felício.
- O Dagoberto, ontem à noite, trouxe um pato grande...mas eu já tinha comprado um para
o Círio. Vai acabar se perdendo no Tucunduba. Fiquei pensando: será que o senhor não
levava pra vender no barco?
- Levo, sim. Em Cametá, tem um bom criador de patos, talvez ele compre pra revender.
Pergunta Rita:
- Como é o nome dele?
- Edgar. Vou vender pra ele.
- Eu lhe dou uma comissãozinha. E se virando para dentro de casa:
- Vai pegar o animal, Dagoberto!
Dagoberto desceu da casa, com as mãos cheias de miolo de pão, para atrair o pato ".


palhetas - tem o significado de " hélices ", sentido muito comum no linguajar da região.

Um ótimo final de semana a todos. Obrigado pelas visita.
Abraço,

Clóvis de Guarajuba
ONG Ande & Limpe

sexta-feira, 1 de dezembro de 2017

- MIOLO DE PÃO - IX -



Dagoberto tem dúvidas: não 
sabe se acompanha a Transladação 
ou se vai para o Riacho Doce.
Chama a atendente.
Um homem passa, carregado de 
bolas gigantescas. Um menino puxa 
o pai pela mão, para comprar a bola 
de tantas cores. Os brinquedos 
estão espalhados pelo chão, 
protegidos por jornais velhos. 
Uma menina  caminha em sentido 
contrário, brincando com um 
reco-reco. O barulho desperta o 
pato. O homem levanta-se.. Olha 
para o pato dentro do paneiro.. 
Fala alto:
 -Véspera do Círio. Que 
Nossa Senhora de Nazaré nos 
proteja! E, curvando-se para pegar 
paneiro: 
-Vamos embora, imbecil!



Depois que Dagoberto deu algumas marretadas na porta, Rita foi atender:
- Só agora? - perguntou.
E Dagoberto:
- Fui atrás de pato!
E tratou de abrir a boca do paneiro. Ficou surpreso porque a boca já estava 
praticamente aberta.
- Olha que beleza! - exclamou.
Rita não concordou muito:
- Pra quê?
- Pro Círio.
- Já comprei o pato pro Círio. Você acha que eu ia esperar até agora?
Dagoberto sentiu cheiro de maniçoba.
- Então vamos comer na próxima semana - sugeriu.
- Pato só é bom no dia do Círio - disse Rita.
- Então coloca no terreiro!
- Que terreiro, homem? Só se for no igarapé do Tucunduba!
O homem caiu em sí e olhou o universitário igarapé. Sem nada dizer, 
concordou com a mulher.
- É um pato grande e bonito!
Lembrou a pessimista:
- Vai quebrar toda a louça se ficar em casa...
Farto de tanto recolhimento, o patarrão deu duas descarregadas no chão 
da casa de Rita, e se dirigiu para o tanque que estava cheio de água.
- Não é o que digo?
Dagoberto coçou a cabeça








Rita se aproximou, pegou 
o pato pelas asas e o sacudiu 
no Tucunduba. O voo curto 
da ave terminou nas águas que 
banham cinco bairros, que 
estavam mansas e apaziguadas 
pelas horas que eram.
- Só resta dormir! - falou 
Dagoberto ao armar a rede ".








Continua na próxima postagem...

Bom final de semana a todos.
Abraço,

Clóvis de Guarajuba
ONG Ande & Limpe