sexta-feira, 24 de novembro de 2017

- MIOLO DE PÃO - VIII -


Rio Tucunduba - Belém

" Indiferente, inchado de tanta poluição, o Tucunduba nada respondia, no seu 
longo deslizar pelos cinco bairros da cidade de Belém, desde Jabatiteua, Marco
Canudos, Terra Firme e Guamá. Apesar de sua doença poder ser identificada 
pelo material que é despejado pelas indústrias situadas às margens, alem do lixo 
doméstico e fezes humanas, o Tucunduba é um pequeno igarapé bonito.
Na travessia que faz pelos bairros pobres de Belém, carrega consigo questões 
de toda sorte, para treze-las finalmente ao campus universitário.
Quanto mais fechada ficava a cara da Rita, a mulher do bêbado, falando contra
o Tucunduba, Dagoberto dizia a brincar:
- Não existe lugar melhor, mulher! Não existe igarapé mais sábio no mundo. Ele 
atravessa o campus da universidade e, se um dia ele transbordar, leva o Riacho 
Doce e tudo o mais!
- A professora Vera disse que vai transbordar, Dagoberto. Só uma dragagem 
salva o igarapé. Quem vai se preocupar com seus moradores?
Sem se incomodar com as brigas e com o lazer das crianças pobres, o Tucunduba 
vai rolando ao longo de sua extensão e de uma população de mais de duzentas 
mil pessoas.




Alegre ficava pelo fluxo de água 
trazido pelo rio Guamá e alguma 
vegetação mais resistente. Dádiva 
dos deuses a sustentar o resto de 
oxigênio que ainda existe.
Por isso é que o Tucunduba
ansiosamente, como que abre sua 
boca pra receber o que o rio Guamá 
manda em solidariedade. Infeliz 
do peixe menor que, ao fugir do 
maior, entra através do Guamá
Não resiste. Foi assim que 
aconteceu com aquele imenso peixe 
de pele lisa que entrou no 
Tucunduba, em dia de maré alta. 
A principio assombrou os meninos 
com seus mergulhos e artimanhas. 
Os que tomavam banho no igarapé 
ficaram apreensivos. 





Pensavam que era um monstro que estava aparecendo no Tucunduba
nas noites de lua cheia. Porque era nas noites de lua cheia que o luar tirava 
reflexos de sua barriga branca. Não foi longe o peixe. Morreu no campus 
universitário, à míngua  de tratamento".

Obs: O peixe referido no texto seria um "Filhote", abundante nos rios da 
Amazôniaque tem a pele lisa, a barriga branca e pode pesar até 200 kg.

Continua na próxima postagem...

Bom final de semana a todos.
Abraço,

Clóvis de Guarajuba
ONG Ande & Limpe

sexta-feira, 17 de novembro de 2017

- MIOLO DE PÃO - VII -





" Como a massa às vezes ficava redonda como uma bola, o pato nunca tinha visto
um miolo de pão tão grande, por isso saiu andando às pressas, um passo lá e outro
cá, e voou em cima da massa de pasteis às bicadas. A vendedora quase desmaiou
com a inesperada e violenta agressão,enquanto o pato saboreava o que podia, ao
mesmo tempo que aproveitou para uma descarregada pelo traseiro..
Enquanto o barraqueiro vizinho tentava ajudar a vendedora, o pato, saciada a
fome, desceu e voltou para o seu lugar primitivo. O bêbado nada percebeu e, pelo
excesso de cerveja, dava cabeçadas no vazio o sono chegando aos poucos.
Embora entre uma cabeçada e outra no vazio a Transladação tenha passado, o
homem ainda via os repetidos fogos de artifício, e ouvia, compassado e agradável,
o badalar dos sinos da Basílica de Nossa Senhora de Nazaré.
Quis chamar a garçonete, mas seu gesto se perdeu naquele aglomerado de
pessoas..  "Pagar a conta e ir pra casa", pensou. Olhou para o pato que já estava
quieto dentro do paneiro. Pensou mais ainda. Não tinha coragem de enfrentar sua
mulher, em casa. Desde setembro de mil novecentos e noventa, com as primeiras
levas dos dez mil invasores, chegara às margens do igarapé do Tucunduba.
Participara da invasão Riacho Doce. Todos diziam que era doce o Tucunduba,
que hoje  é uma sujeira de meter medo.

A mulher era por demais rabugenta, burra e pessimista. Vivia a falar contra o
Tucunduba.- Ele vai transbordar! Quem falou foi a doutora Vera, E, quando
transbordar, vai levar todas as nossas casas...
Ao lado do sanitário ficava a cozinha, e a mulher jogava uma lata amarrada por
uma corda para puxar água. Quando estava para discutir, o bêbado dizia:
- Poluído nada! As crianças andam de canoa e tomam banho.
Dagoberto era o bêbado. Esperava todas as tardes que, pelo menos uma vez
só, a mulher chamasse carinhosamente pelas duas primeiras sílabas do seu
nome, acrescentando um assento agudo ou circunflexo, para ele melhor olhar a
vida.Quando amanhecia e via a mulher olhando o igarapé passar, segurando o
balde para puxar água, costumava  brincar alegremente. Olhava o igarapé e dizia:
- Bom dia, Flor do dia! "

Continua na próxima postagem...

Desejo a todos os meus amigos uma excelente Páscoa.
Abraço,

Clóvis de Guarajuba
ONG Ande & Limpe

sexta-feira, 10 de novembro de 2017

- MIOLO DE PÃO - VI -





" O homem falava consigo mesmo:
- Boca seca. Faz tempo que não bebo!
A brisa vespertina da baía de Guajará já tinha invadido a cidade e o clima estava
ameno, por isso o homem foi caminhando. Ao aproximar-se da união da Braz de
Aguiar com a Generalíssimo, viu as luzes do Largo de Nazaré, porque a noite
tinha chegado e a resistência da tarde era tênue por dois ou três borrões de
vermelho no horizonte.
Sentou-se à mesa do Largo, situado à frente do colégio Barão do Rio Branco
e pediu:
- Cerveja!
À primeira garrafa seguiram-se tantas outras que, depois de algum  tempo, a
própria mesa já era uma festa. Ficou alegre, dizia gracejos às garçonetes.
Ouviu tantos fogos de artifício, e viu tantas pessoas que iam em procissão lá na
outra extremidade, que perguntou a um casal que passava:
- O Círio agora é à noite?
E o homem que passava fechou a cara:
- É a Transladação, herege!
Chamou a garçonete:
- Mais uma cerveja!
O pato é que não achava jeito para dormir com tantos fogos e tanto barulho.
O instinto lhe dizia que era hora de dormir, porque assim acontecia no quintal
da Neuzita, em Cametá: quando a noite vinha chegando as criações do Edgar
se acomodavam para dormir. Mas, ali, não era possível pela confusão reinante.
Foi por isso que colocou a cabeça fora do paneiro, para melhor apreciar o que
estava acontecendo. Foi exatamente quando passava um cachorro vira-lata, que
teve a infelicidade de cheirar o paneiro para examinar seu conteúdo e recebeu,
no mesmo momento, uma bicada tão violenta que saiu ganindo e saltando de
uma perna só.
O pato forçou um pouco mais e saiu do paneiro. Sacudiu as asas e ficou a
olhar os acontecimentos. Três barracas adiante da que estava, uma mulher
gorda preparava a massa para fazer pastéis em grande quantidade. O suor se
avolumava na testa, e ela o retirava com o dedo em forma de gancho ".

Continua na próxima postagem...

Um ótimo final de semana a todos.
Grande abraço,

Clóvis de Guarajuba
ONG Ande & Limpe

sexta-feira, 3 de novembro de 2017

- MIOLO DE PÃO - V -


" O menino de rua quase 
desistiu de pedir de porta em 
porta qualquer coisa para matar 
a fome. Surpreendeu-se, depois 
de várias horas, quando alguém
teve piedade e lhe repassou 
alguns pedaços de pão dormido. 
Pão tão ruim, que só a fome o 
obrigou a colocar alguns pedaços 
na boca, enquanto caminhava.
Ao passar diante da velha igreja 
da Sé, uma leve aragem 
espalhava cheiro do pão pela 
redondeza, dificil odor só 
percebido por poucos. 
O menino caminhava sem 
destino certo, devagar, segurando 
o pão displicentemente, quando 
foi  surpreendido por uma violenta 
bicada que levou parte do pão.
Pulou para trás e procurou verificar 
de onde vinha o ataque. 



O pato, que tinha engolido o que conquistara com valentia, preparava-se para o 
segundo ataque. O menino riu.
- Gosta de pão, danado!
Ao pensar que o bicho talvez estivesse também com fome, jogou um pedaço da
casca. O pato cheirou a oferta e a desprezou. O menino retirou uma parte do
miolo e fez uma pequena bola e jogou para o pato. Ele comeu, com sofreguidão.
- Gosta só de miolo? - perguntou o menino.
Ao ouvir a palavra mágica, Miolo de Pão sacudiu a traseira e grasnou, talvez
lembrando-se de uma menina que costumava alimentá-lo enquanto alisava sua
cabeça e suas asas. Depois de dar  todo o miolo de pão dormido para o animal, 
o menino foi embora 
assobiando, enquanto o pato o olhava agradecidamente, dando mais uma
saraivada de sujeira na calçada de pedras.

O homem bebido, como se 
estivesse morto, nada viu. 
A única coisa que o ligava
ao mundo dos vivos era o 
ressonar alto, o que o levava, 
de espaço a espaço, a
entreabrir a boca, por onde 
passavam finos sopros, em 
forma de roncos.Ao cair da 
tarde, quando já chegavam 
alguns fiéis para a missa, ele 
despertou. Espreguiçou-se, 
olhou para o paneiro, levantou-se 
e disse:
- Vamos embora, imbecil!
Como o efeito da bebida já 
tinha passado, saiu andando 
firme e segurando o pato, sem 
notar que a boca do paneiro já 
estava aberta, por onde o 
pato tinha voltado a entrar, 
depois de comer miolo de pão. "



Continua na próxima postagem...

Bom final de semana aos meus amigos e visitantes. Obrigado pelas visitas.
Abraço,

Clóvis de Guarajuba
ONG Ande & Limpe