sexta-feira, 27 de outubro de 2017

- MIOLO DE PÃO - IV -



" Quase em frente ao Colégio do
Carmo, o peso do paneiro dizia
que era um patarrão. E começou
a pensar: " Não preciso de tanta
carne de pato em casa, o certo
seria a metade do animal, já que
é muito grande. Poderia vendê-lo
e, com o dinheiro, compraria no
supermercado o tanto de pato
que preciso ". E foi andando com
seus pensamentos. A cidade
estava em sua festa maior,
sentia-se nas feições das pessoas.
Os táxis chegavam e saiam lotados.
Teve um último pensamento:
" Depois, não fica bem, eu fardado
carregando um pato pelas ruas da
cidade "... Um homem bastante
bebido tentava retirar uma cédula
de um pacote de notas.



- Quer vender o pato?
- Sim - disse o guarda.
Ajustaram o preço, e o homem da lei saiu andando com a consciência serena
e o dinheiro no bolso.
O bêbado pegou o paneiro do pato e falou alto:
- A mulher é que vai gostar! Vamos lá, seu imbecil.
E saiu andando entre os romeiros com alguma dificuldade.
Quando pisou na calçada da igreja da Sé, o sol já ia muito alto e o calor
respeitável. Uma suave música fez com que olhasse para dentro da igreja.
De onde vinha som tão bonito? Não soube identificar. Olhou um pouco mais
para dentro, e ficou parado por alguns instantes.
Uma paz suave dominou o bêbado. Ele não sabia que eram os dedos do
padre Cláudio Barradas, fazendo o instrumento soltar os sons musicais de
Mozart, acompanhado da voz do pastor.. E Mozart era tão celestial e suave,
que o bebaça foi se encostando na parede da centenária igreja, lembrando-se
de sua mãe nos Círios passados, quando acompanhava a procissão levado
pela mão materna.. Ou a música ou o calor daquelas horas, ou as lembranças
da véspera do Círio de Nossa Senhora de Nazaré, foram amolecendo o
homem, que colocou o pato ao lado e foi se arriando na calçada.

O pato sentiu que alguma coisa estava acontecendo, não só pela suave e bela
música, como porque o mundo deixou de balançar quando o paneiro foi colocado
no chão morno. Por isso tratou de alargar a passagem das talas da boca do
paneiro. E tantas fez, e empurrou tanto, que conseguiu primeiro passar a cabeça,
e, só depois, conseguiu passar o corpo, sacudindo-se todo, ao sonhar com
água corrente. Ficou do lado do tonto e do paneiro, amedrontado com aquele
mundo desconhecido ao ouvir os passos das pessoas e vendo o velho casario
da igreja de Santo Alexandre, bem como a entrada do forte do Castelo ".

Continua na próxima postagem...

Um grande abraço a todos e obrigado pela visita. Bom final de semana.

Clóvis de Guarajuba
ONG Ande & Limpe

sexta-feira, 20 de outubro de 2017

- MIOLO DE PÃO - III -


" Quando Neuzita chegou do colégio foi correndo ao quintal, mas não encontrou o
Miolo de Pão. Inúteis ficaram as migalhas em suas mãos sujas de tinta de caneta.
O terreiro pareceu vazio.
- Pato é pra panela.
O pai foi sucinto demais.
Procurou atingir o cais de Cametá, correndo sem parar, porque soubera quem
comprou o Miolo de Pão




" Ao avistar o cais, avistou também o barco " Rodrigues Alves ", já fazendo a
curva, no meio do rio, à procura da cidade de Belém. Nunca soube se o seu
coração queria parar ou pular de dentro do peito. Sentou-se na calçada e ficou
a olhar a embarcação, navegando a toda força, cheia de gente, a dizer adeus
aos que ficavam. Ao desembarcar no Porto do Sal, além da pasta de serviço,
o vendedor-pracista tinha diversas e variadas amostras de tecidos e de plásticos
para acomodar na saída do barco. Tropeçando entre os romeiros com tantos
pacotes, descuidou-se do Miolo de Pão, que ficou bastante atrás. Ao voltar-se
para apanhar o pato, ele não estava mais ali. Alguém o levara.. Quiz abrir a boca
para gritar, mas como pisaram em alguns de seus caixotes de amostras, o cometa
resolveu continuar a descida, quase espremido, amargando a derrota.
O ladrão já ia muito longe, levando o pato dentro do paneiro, tal qual viera da
casa de Edgar. Não satisfeito pela proeza, logo adiante subtraiu uma carteira de
outro passageiro, e mais depressa andou. Mas um guarda o flagrou, no segundo
roubo.
- Alto lá, bandido!
- Não fiz nada - disse o ladrão, como sempre dizem todos os ladrões.
- Eu ví você bater a carteira do homem.
Estava preso, sentiu o ladrão. Amoleceu.
- Estava com fome, seu guarda...
O guarda tinha cara de mau. Ouvia tudo parado. As pessoas continuavam a
passar, porém não prestavam atenção ao fato. O guarda lembrou-se de que era
véspera do Círio, e não tinha deixado em casa o pato para o tucupi.
- Vamos dividir, amigo, eu fico com a carteira e dou o pato - propôs o ladrão.
O guarda olhou para um lado e para o outro, como não tivesse ninguém
olhando, aceitou.
- Tudo bem, mas desapareça da minha área!
E, ao assim dizer, segurou o paneiro* com o pato. ".


* Paneiro: cesto feito de fibra vegetal, muito comum para embalagem de quase
tudo, na região.



Um ótimo finl de semana a todos.
Até a próxima sexta-feira. Abraço,

Clóvis de Guarajuba
ONG Ande & Limpe

sexta-feira, 13 de outubro de 2017

MIOLO DE PÃO - II -





Depois de várias considerações, certo dia, ao brincar com as formigas
que procuravam seguir caminho impedidas pela menina, ela pensou:
- É.
E gritou:
- Miolo de Pão!
Como Miolo de Pão já tinha surrado duas galinhas, diante da crista do
galo, que ficou mais vermelha ainda; pisado na porca deitada, que grunhiu
simplesmente, empurrado um peru, que só fez glu-glu, foi correndo buscar
o que mais gostava na vida. A partir daí, passou a atender realmente por
"Miolo de Pão". Quando o pato era muito pequeno, Neuzita apanhara uma
bacia grande de alumínio amassada e despejara água até as bordas.
Colocara o valente pato dentro, e ficara muito impressionada porque ele
nadava tão bem.  E pensara: "Calcule se ele tivesse professor de natação!"
Hóspede da pensão de dona Liberata, o vendedor pracista perguntou onde
compraria um pato grande e gordo para levar para casa, porque no dia
seguinte era véspera do Círio de Nossa Senhora de Nazaré. Como
passar um Círio sem comer pato no tucupi? Panelões e panelões de tucupi
iam ferver na cidade, com jambu e camarão e o imperdível pato.
Solícita e amiga do bem servir a seus hóspedes, dona Liberata indicou a
casa do Edgar, onde tinham os melhores patos da cidade de Cametá.
Depois de discutir o preço, Edgar levou o vendedor até o quintal e mostrou
as suas criações.
- Aquele ali ! - apontou - Que pato bonito e grande !
- Menos ele - disse Edgar.
- Por que? Vai comer você mesmo?
- Não. É cria da casa.
- Dobro o preço!
Edgar pensou mais de uma vez, fez contas nos dedos e, por fim, disse:
- Não posso vender.
- Além de dobrar o preço, ainda dou o dinheiro da branquinha por fora.
- Vou ouvir minha mulher.
O que se passou lá dentro ninguém soube além dos dois. Longa conversa,
a princípio baixa. O vendedor- pracista só ouviu a última frase da Maria
das Dores para Edgar:
- Você decide ".

Continua na próxima postagem...

Um abraço com desejo de que tenham todos excelente final de semana.

Clóvis de Guarajuba
ONG Ande & Limpe

sexta-feira, 6 de outubro de 2017

- MIOLO DE PÃO - I -


                                                  Parte da capa da obra


Nasceu amarelo como ouro, e melhor sorte não teve, segundo alguns
conhecedores, porque a mãe não fez a gritaria que a galinha faz quando,
ao expelir o ovo, anuncia o acontecimento como se fosse a maior coisa
da vida. Não veio só a este mundo. Com ele vieram seis outros irmãos
que, ao crescerem, tomaram destinos ignorados.
Irmãos de raça tinha muitos pelo quintal, misturados entre as outras criações
do Edgar, pai da Neuzita e marido da Maria das Dores.
Maior encanto para Neuzita não havia senão aquele minúsculo ser vivo, de
irresistível atração pela água. Acompanhou o crescimento da criação, desde
os tempos em que o colocava nas mãos, com cuidado pra não cair das alturas,
até atingir quatro quilos e meio, quando já se transformara naquilo que
Neuzita chamava:
- Terror do terreiro, meu valente pato.
Desde quando era amarelo como ouro, que Neuzita procurava ensinar artes
ao pato. Enrolava nas mãos miolo de pão e chamava o pato, que vinha dócil,
amigo e lépido. Com o pequeno bico retirava a comida da mão da menina.
Neuzita abria a cancela do quintal e gritava:
- É miolo de pão!
Estivesse onde estivesse, o pato largava tudo o que fazia, e vinha rápido
buscar o que mais amava na vida: miolo de pão.
Quando era muito pequeno, Neuzita deixava primeiro o pato cheirar a massa
do trigo, só depois colocava a migalha na palma da mão para ele comer.
Assim, pensava Neuzita, ensinava-o a conhecer o pão.
Como o tratava com muita atenção, Edgar dissera que o bicho ia crescer
molenga demais, alvo de qualquer gavião que descesse das alturas, com sua
visão de cem metros de distância.
Para evitar tal comportamento futuro, Neuzita usou de muitos truques e
artimanhas. Uma delas foi despertar a atenção das outras criações, inclusive
do galo brigão, e jogar entre eles sua comida preferida. Levantavam poeira
do chão na disputa. Por tudo isso, o pai, ao ouvir a menina gritar "Terror do
terreiro, meu valente pato", aconselhou:
- Se fosse você, chamava o seu amigo de Miolo de Pão ".

Continua na próxima postagem...

Desejo um excelente final de semana aos meus amigos e visitantes.
Até a próxima sexta-feira.